Operação Mossad no Irã: recrutamento de Ahmadinejad e o xadrez do 'regime change'
Revelações do NYT e Haaretz sobre a operação do Mossad visando Ahmadinejad e as tensões internas em Israel no projeto de regime change no Irã.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Operação Mossad no Irã: recrutamento de Ahmadinejad e o xadrez do 'regime change'
Como peças antigas em um tabuleiro de política, operações de inteligência já mudaram rumos de governos. Uma dessas histórias remonta aos anos 1960, quando o Mossad conseguiu infiltrar um agente na Síria — Coehnin — que chegou aos níveis mais altos do poder e transmitiu informações militares decisivas ao serviço de inteligência israelense. Descoberto, Coehnin foi executado em 1965. Essa memória histórica ilumina, por contraste, a complexidade e os riscos das operações contemporâneas no Oriente Médio.
Reportagens detalhadas do The New York Times e do Haaretz, reunindo peças desde 2022, lançam luz sobre uma operação do Mossad voltada ao Irã que visava cooptar figuras internas com potencial de substituição do regime. O nome central deste enredo é o do ex-presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Após deixar o cargo em 2013, Ahmadinejad surpreendeu observadores ao moderar discursos rígidos contra Israel, e em certos momentos passou a considerar o programa nuclear mais como um fardo do que como um trunfo.
Observado como uma potencial peça a ser movida em caso de um regime change, Ahmadinejad foi alvo de tentativas de aproximação pelo serviço israelense. Segundo as investigações jornalísticas, o primeiro contato documentado ocorreu em 2023 na Guatemala, onde Ahmadinejad participava de uma conferência ambiental. Um encontro subsequente em 2024 teria se dado em Budapeste, durante um evento universitário organizado especificamente para o fim, e confirmado pelo reitor Gergely Deli: ciente do risco reputacional, Deli justificou o convite como um esforço para preservar vidas ao facilitar o diálogo entre inimigos.
Ao longo do processo, também teriam ocorrido pagamentos a intermediários, incluindo o porta-voz de Ahmadinejad, Ali Akbar Javanfekr, conforme apurado. No centro da operação esteve, segundo as reportagens, o então diretor do Mossad, David Barnea, que teria participado pessoalmente do encontro em Budapeste e defendido o plano frente a reticências internas.
Nem todos os corredores do poder em Israel aprovaram a manobra. Relatórios militares citados por Haaretz descrevem reservas do general de divisão Shlomi Binder, então chefe da inteligência militar das Forças de Defesa de Israel (IDF), que avaliou as probabilidades de êxito como limitadas. Outro parecer crítico partiu do general de brigada Ofir Mizrahi Rosen, responsável pela divisão de pesquisa da inteligência militar. Além disso, figuras políticas como Tzachi Hanegbi, tido na época como conselheiro de segurança nacional, teriam se afastado de apoios públicos ao plano, segundo relatos.
Desde o início do conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel tem sido enfatizado que a operação não apresentava, em essência, as mesmas características das intervenções observadas na Venezuela ou das tentativas registradas em Cuba. Ainda assim, os grandes protestos que eclodiram após a morte de Mahsa Amini foram interpretados pelos arquitetos do plano como uma janela — possivelmente breve — para um colapso do regime.
Da perspectiva de estratégia internacional, trata-se de um movimento que busca inserir um novo ator no tabuleiro iraniano sem o choque aberto de uma intervenção externa. É um jogo de paciência e de riscos: o esforço por cooptar um antigo presidente com rede e legitimidade interna evoca tanto a tentativa de colocar uma peça influente numa posição-chave quanto o perigo do contragolpe e das repercussões regionais. Em termos de realpolitik, essa operação evidencia os alicerces frágeis da diplomacia na região e o redesenho invisível das fronteiras de influência.
Enquanto as investigações jornalísticas consolidam elementos — encontros, pagamentos, discordâncias internas — o que permanece é a imagem de um tabuleiro global onde movimentos sigilosos podem alterar a tectônica de poder. Os riscos reputacionais, a possibilidade de exposição e o potencial de escalada regional lembram que operações dessa natureza demandam, além de audácia, um cálculo frio e uma compreensão profunda das consequências a médio e longo prazo.
Sou Marco Severini para Espresso Italia: observo, com a calma de quem conhece as tramas da história e a geografia dos interesses, que cada tentativa de influenciar o destino de um Estado soberano é também um teste para as estruturas internacionais — e para a solidez das alianças que sustentam esse delicado xadrez.