Zelensky diz que frente está na melhor fase em 10 meses; Kremlin exige recuo ucraniano no Donbas
Zelensky afirma melhor momento da frente em 10 meses; quase 500 drones e mísseis atacam e Moscou exige recuo ucraniano no Donbas.
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Zelensky diz que frente está na melhor fase em 10 meses; Kremlin exige recuo ucraniano no Donbas
Por Marco Severini — Em um desdobrar tenso da tensão no leste europeu, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky descreveu a situação na linha de frente como a melhor dos últimos dez meses, enquanto Moscou mantém a pressão diplomática exigindo o recuo das forças de Kiev das áreas do Donbas ainda sob seu controle. O pronunciamento, austero e calculado, traduz um movimento estratégico no grande tabuleiro que vem redesenhando a tensão entre os polos de influência.
No relato público do presidente, a melhora das condições ao longo do front não foi fruto do acaso: segundo Kiev, as forças ucranianas conseguiram suster e frustrar uma ofensiva russa planejada para março. "A ofensiva que estavam planejando para março foi sventada pelo intervento delle nostre forze armate", sintetizou Zelensky, destacando que essa fricção operacional obrigará Moscou a intensificar operações de assalto, numa dinâmica previsível de escalada tática quando um plano estratégico falha.
Paralelamente ao quadro militar, Zelensky registrou um diálogo com o Papa — identificado em suas palavras como Leone XIV — no qual tratou de múltiplos pontos: o processo negocial, a colaboração com a delegação norte-americana, o apoio do Vaticano no resgate de crianças raptadas e a assistência humanitária fornecida ao povo ucraniano durante o inverno rigoroso. O presidente também renovou o convite para uma visita apostólica ao país e agradeceu as orações pela paz do seu povo.
O episódio ganhou contornos mais sombrios no mesmo dia: quase quinhentos drones e mísseis de cruzeiro atacaram cidades ucranianas, segundo comunicado do ministro dos Negócios Estrangeiros, Andrii Sybiha. Ao menos uma pessoa morreu e outras ficaram feridas; em Obukhiv, um drone colidiu contra um prédio residencial. A companhia elétrica Ukrenergo relatou cortes de energia de emergência em várias regiões, reflexo do impacto sistêmico dos ataques.
Do lado russo, o porta‑voz do Kremlin, Dmitry Peskov, reiterou que um recuo ucraniano do Donbas facilitaria uma solução, posicionamento que funciona como peça de pressão política e estratégica no tabuleiro das negociações: exigir concessões territoriais em troca de estabilidade é manobra clássica de influência regional.
Como analista que observa a tectônica de poder na Europa, é preciso ler esses eventos como combinações simultâneas de mérito militar, cálculo diplomático e guerra de narrativa. A melhora no front para Kiev é um ganho tático que, contudo, não elimina os alicerces frágeis da diplomacia. Enquanto as linhas de frente oscilam, a diplomacia exige um movimento decisivo: transformar ganhos militares locais em condições sustentáveis para um cessar‑fogo e, mais adiante, para um acordo político duradouro. Até lá, o tabuleiro permanece em movimento e a próxima abertura, seja militar ou negocial, será determinante.