Guerra permanente: o Ocidente entre propaganda e declínio — é preciso distanciar-se das agressões de Trump e Netanyahu

Análise de Marco Severini sobre a deriva belicista do Ocidente e a urgência de distanciamento das agressões de Trump e Netanyahu.

Guerra permanente: o Ocidente entre propaganda e declínio — é preciso distanciar-se das agressões de Trump e Netanyahu

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Guerra permanente: o Ocidente entre propaganda e declínio — é preciso distanciar-se das agressões de Trump e Netanyahu

Por Marco Severini, Espresso Italia

Nas últimas semanas voltou a emergir, com crueza perturbadora, a narrativa de que a violência seletiva e as operações extracurriculares são ferramentas legítimas da política externa ocidental. Como observou Pino Cabras, um texto publicado no Washington Post chegou a justificar a eliminação reiterada de negociadores iranianos caso estes não se submetam aos ditames de Donald Trump. O que, até ontem, aparecia como operações encobertas da CIA — episódios como o assassinato de Lumumba no Congo — hoje é tratado, abertamente, como instrumento aceitável da relação entre Estados mais poderosos e potências menores.

Essa mudança de paradigma merece ser analisada com calma. Pergunto-me o que dirão figuras do establishment intelectual italiano — Paolo Mieli, Maurizio Molinari, Angelo Panebianco, Vittorio E. Parsi — que tantas vezes cantaram a superioridade moral do Ocidente ao condenar Rússia, China e Irã. A coerência entre discurso e prática está em frangalhos.

Do ponto de vista estratégico, as campanhas contra Rússia e Irã assumem uma feição quase sacral: são apresentadas, nas capitais ocidentais, como guerras necessárias contra inimigos que «nos ameaçam». Moscou e Teerã, porém, reaccionam com previsível firmeza: não pretendem ser desprovidos de soberania nem ceder seus recursos naturais a diktats externos. Nesse tabuleiro de xadrez global, Estados Unidos e Europa ensaiam uma divisão de tarefas pragmática. A União Europeia, por exemplo, foi chamada a manter a Ucrânia em suporte vital — confirmada pelo recente pacote de financiamento europeu de 90 bilhões de euros — transformando-a, na prática, em um campo de desgaste contra a Rússia.

Uma pequena observação, fruto de diálogo direto com jovens formados em instituições como a Bocconi, demonstra o alcance da propaganda: quando questionei se não seria imperioso buscar uma mesa de negociação para pôr fim ao massacre — lembrando que, desde 2014, esforços de mediação foram obstruídos e a neutralidade ucraniana foi sufocada — recebi respostas frias. Argumentou-se que os ucranianos, vítimas, escolheriam o momento de terminar a guerra. Essa dessensibilização é sintoma de uma transformação antropológica: a propaganda desumaniza tanto jovens quanto adultos, num processo que altera estruturas de decisão e empatia.

No que concerne ao Irã, a estratégia dominante — alimentada por Tel Aviv e por círculos belicistas em Washington — desenha um cenário de guerra permanente. A lógica aqui é clara: submeter Teerã por meio de pressões militares e econômicas, aproveitando a vulnerabilidade gerada pelo controle do estreito de Hormuz para impor um regime de «stop and go» que mitigue os efeitos sobre a economia global. Bombardeamentos extensivos, ataques a infraestruturas civis e a contínua ameaça nuclear são hoje apresentados, em voz alta, como instrumentos legítimos de persuasão moral.

Se essa linha prevalecer, as consequências são previsíveis: escalada regional, retraimento das margens de manobra diplomática e erosão dos alicerces do direito internacional. O Ocidente corre o risco de perder autoridade — não apenas moral, mas estratégica — ao confundir interesses imediatos com superioridade civilizacional. Mais ainda: corre-se o perigo de reconfigurar fronteiras invisíveis de influência, redesenhando a tectônica de poder global em favor de uma política de agressão contínua.

É tempo de uma nova prudência. A Europa, em particular, deve reavaliar seu papel: não como vassala de estratégias externas, mas como ator capaz de promover negociações dignas e sustentáveis. Distanciar-se das posturas mais agressivas de Trump e de Netanyahu não é covardia; é, antes, um movimento estratégico de preservação da soberania europeia e da estabilidade internacional. A diplomacia, nesse contexto, deve recuperar seu lugar como o movimento de mestre no grande tabuleiro: aquele que antecipa riscos, preserva peças essenciais e trabalha pela manutenção do equilíbrio, não pela perpetuação do conflito.

Sem esse reposicionamento, assistiremos a um declínio do soft power ocidental e ao fortalecimento de eixos alternativos, construídos sobre ressentimentos e interesses cruentos. A escolha é, em última análise, uma decisão de Estado: prolongar a guerra como forma de poder ou retomar os caminhos tortuosos, porém necessários, da negociação.

Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional da Espresso Italia.