Pais são levados a julgamento 39 anos após morte e mutilação de Inass na A10

Pais de Inass são julgados 39 anos após a morte e mutilação na A10; DNA reabriu caso arquivado nos anos 1990.

Pais são levados a julgamento 39 anos após morte e mutilação de Inass na A10

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Pais são levados a julgamento 39 anos após morte e mutilação de Inass na A10

Abriu-se na França, quase quatro décadas depois, o julgamento dos pais de Inass Touloub, a menina de quatro anos cujo corpo mutilado foi encontrado ao lado da autostrada A10 em 11 de agosto de 1987. O caso, até agora um dos crimes não solucionados mais antigos do país, reentra no centro do debate público e judiciário com um peso simbólico e forense que redesenha, lentamente, fraturas esquecidas na memória coletiva.

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O processo, agendado até 18 de novembro, coloca no banco dos réus a mãe, Halima El Bakhti, 72 anos, acusada de torturas e atos de barbárie que teriam provocado a morte sem intenção de matar, e o pai, Ahmed Touloub, 74 anos, denunciado por cumplicidade. Ambos respondem a acusações que, em tese, podem culminar em ergastolo.

Os dois chegaram ao tribunal separadamente e evitaram o encontro visual: a mãe com o rosto coberto por um lenço, o pai subindo os degraus com esforço, apoiado em uma bengala e usando máscara preta. Antes da audiência, ativistas do coletivo Mouv'Enfants exibiram um cartaz com a inscrição "Justice pour Inass" e fotografias da criança — uma lembrança dura de como certos crimes se mantêm como feridas abertas no tecido social.

O corpo da menina foi achado num fosso junto à rodovia, entre Orléans e Tours, sem que ninguém houvesse noticiado seu desaparecimento. As marcas de violência eram numerosas: queimaduras atribuídas a um ferro de passar e sinais de mordidas humanas, circunstâncias que lhe valeram o apelido de "pequena mártir da A10".

Na época, a gendarmaria lançou o que foi descrito como o maior apelo por testemunhas já feito na França: descrições difundidas em mais de 30 países, fotografia afixada em 65 mil escolas e 30 mil prefeituras, num esforço de cartografia humana que buscava fechar lacunas. Ainda assim, o inquérito foi arquivado duas vezes, em 1991 e 1997, e o caso repousou nas prateleiras da justiça.

A reviravolta ocorreu em 2018, quando um exame de DNA colhido no irmão da vítima durante outra investigação mostrou compatibilidade com traços genéticos encontrados nas roupas e na manta em que a menina fora envolvida. A partir desse elo genético, os investigadores identificaram Inass e procederam à detenção dos pais em junho de 2018.

As autoridades dizem que a mãe infligiu à filha violência "voluntária, numerosa e repetida ao longo do tempo", resultando em sua morte, enquanto o pai teria tido conhecimento dos maus-tratos. Ambos, porém, negam as imputações e trocam acusações relativas a agressões conjugais nos interrogatórios.

O processo sofreu adiamentos por recursos apresentados pelas defesas e pela procuradoria de Blois. Apenas em setembro de 2024 a Cour de cassation abriu definitivamente a via para o julgamento, confirmando as peças acusatórias iniciais. Para a sociedade civil e para grupos defensores das vítimas, esta etapa judicial é vista como um movimento decisivo no tabuleiro da justiça — um deslocamento tectônico que testa os alicerces frágeis da responsabilidade penal ao longo do tempo.

Como analista, observo que o caso não é só uma busca por sanção penal, mas um exame das instituições: da eficácia da investigação forense ao papel da memória pública. O processo será, por isso, menos uma catarse retórica do que um lento exame técnico e moral, onde provas, testemunhos e silêncios antigos disputarão terreno em uma arena em que a história e a lei se cruzam como peças em um jogo de xadrez cujo fim permanece imprevisível.

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