«Palestina aos palestinos e Israel na Alemanha»: Uma leitura diplomática e estratégica
Análise diplomática sobre a proposta de transferir Israel à Alemanha e as implicações históricas, jurídicas e o papel da Itália.
RESUMO ✦
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«Palestina aos palestinos e Israel na Alemanha»: Uma leitura diplomática e estratégica
Li com atenção a carta anônima enviada ao Giornale d'Italia em 4 de dezembro de 2025, intitulada «La soluzione per la 'Terra Santa', 2 popoli IN 2 Stati: Palestina ai palestinesi e Israele in Germania». Como analista com longa experiência em tabuleiros geopolíticos, encontro nela um conjunto de intuições interessantes e algumas simplificações que merecem um exame calmo e rigoroso.
Primeiro ponto: a pergunta moral que dá origem à proposta — por que os árabes da Palestina deveriam pagar pelas culpas europeias em relação aos judeus? — é legítima e toca uma ferida histórica indelével. Um historiador já apontou que a responsabilidade europeia pelo antissemitismo e pelo Holocausto é inegável; nesse grupo de observadores, recordo a reflexão de Isaac Deutscher. Mas a análise deve resistir à tentação de reduzir a cadeia de responsabilidades a um único ator: o papel da Alemanha nazista foi central, porém não exclusivo. Pogroms e perseguições contra judeus ocorreram em outros contextos do Oriente Médio — como Hebron em 1929 e Bagdá em 1941 — questões documentadas por historiadores como Bernard Lewis.
Além disso, a exposição histórica dos anos 1930 e 1940 mostra que leis raciais e políticas de exclusão ganharam campo em vários Estados europeus. As legislações antissemitas foram institucionalizadas na Alemanha desde 1935, mas também tiveram eco em Áustria (após o Anschluss de 1938) e na própria Itália a partir de 1938. Esse conjunto de alicerces frágeis da diplomacia europeia da época compõe um mosaico de cumplicidades e responsabilidades que não se resolve apenas apontando um único Estado como sacrifício necessário.
Do ponto de vista jurídico e de soberania, existe um contraste decisivo entre a Europa e a Palestina mandatária. Estados como a Alemanha, a Áustria e a Itália já detinham soberania consolidada — ainda que sujeita a rupturas — enquanto a Palestina, após a queda do Império Otomano, vivia sob mandato britânico e ausência de plena autodeterminação desde a Conferência de Sèvres (1920). Esse elemento territorial e jurídico torna a proposição de transposição de populações e Estados um movimento que não resolve, no plano prático, as raízes do conflito.
Permitam-me um comentário literário: escrevi anteriormente uma obra de história alternativa na qual imaginei a criação de um Estado judaico nos Alpes, às margens da Baviera, do Tirol e até do Vêneto. A fantasia reflete uma pergunta estratégica — teria sido possível outra geografia para a fundação de Israel em 1948? —, mas a realidade diplomática é outra: fronteiras são também tecido de identidades, traumas e memórias, e o redesenho de fronteiras invisíveis frequentemente cria mais instabilidade do que paz.
Há ainda uma questão moral e política sobre a responsabilização coletiva. Se se aceita que as políticas do governo israelense sejam atribuídas ao conjunto dos cidadãos de Israel, por coerência deve-se aplicar o mesmo raciocínio a Gaza: as decisões e atos de Hamas — que venceu eleições em 2006 e exerce autoridade sobre a faixa — não podem ser automaticamente transferidos para todas as pessoas que vivem em Gaza sem distinguir vítimas de perpetradores. A estabilidade de qualquer proposta exige distinguir atores políticos de populações civis.
No plano italiano, o papel de Roma é o de um ator mediano e com responsabilidades específicas. A Itália, integrada em NATO e União Europeia, deve atuar como ponte: preservar laços diplomáticos históricos com Tel Aviv, manter relações com Autoridade Palestina, e sobretudo fomentar iniciativas que reduzam a tectônica de poder regional que alimenta ciclos de violência. Nossa política externa deve evitar gestos simbólicos que pareçam externalizar culpas históricas, preferindo operações concretas de mediação, ajuda humanitária e construção de confiança.
Em termos estratégicos, a proposta anônima funciona como um lance teórico sobre o tabuleiro: é um movimento imaginativo, mas que não resolve as compensações de soberania, não apaga memórias e corre o risco de criar novas linhas de fratura. A diplomacia eficaz tende a operar em pequenos, precisos e acumulativos movimentos de xadrez — não em trocar peças de um tabuleiro inteiro em nome de uma reparação simplificada.
Concluo: a ideia de deslocar um Estado como solução última para um conflito com raízes múltiplas é sedutora na retórica, mas frágil em aplicação. O caminho plausível continua sendo o de políticas que combinem justiça histórica, distinção entre atores políticos e civis, e ações práticas de estabilização — campo onde a Itália pode e deve desempenhar um papel construtivo, com prudência e responsabilidade.
Marco Severini — Espresso Italia. Voz de geopolítica e estratégia internacional.