Putin e Trump falam por 90 minutos: Moscou propõe tregua em 9 de maio e diz acordo com Kiev está próximo
Putin e Trump conversaram por 90 minutos; Moscou propõe tregua em 9 de maio e afirma que acordo com Kiev está próximo. Análise de Marco Severini.
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Putin e Trump falam por 90 minutos: Moscou propõe tregua em 9 de maio e diz acordo com Kiev está próximo
Por Marco Severini — Em um diálogo prolongado e de contornos estratégicos, o presidente russo Vladimir Putin e o ex-presidente americano Donald Trump mantiveram uma conversa telefônica de mais de 90 minutos na qual foram debatidos os rumos imediatos de crises que redesenham a tectônica de poder global. Segundo o Kremlin, Putin afirmou estar pronto a declarar uma tregua durante as comemorações do Dia da Vitória, em 9 de maio, e assegurou que um acordo para encerrar a guerra na Ucrânia está próximo.
O conselheiro presidencial russo Yuri Ushakov definiu o contato como "amigável, franco e concreto". Na exposição relatada ao interlocutor americano, Putin reiterou que os objetivos da chamada "operação militar especial" serão alcançados, mas explicitou a preferência por resolver a disputa por via das negociações. A narrativa russa descreve um quadro em que as tropas estariam "apertando" o inimigo na área de operações — uma linguagem que, no jargão da estratégia, equivale a um movimento de cerco no tabuleiro.
De acordo com o Kremlin, Putin acusou forças ucranianas de empregar "métodos puramente terroristas" em ataques contra alvos civis. Ainda segundo o relato, Moscou teria entregue à Ucrânia mais de 20.000 corpos de mortos, recebendo em contrapartida pouco mais de 500 — um dado que ilustra a narrativa de assimetria humanitária divulgada por autoridades russas e que exige verificação independente no teatro de operações.
Por seu lado, Trump afirmou publicamente que foi ele quem sugeriu a ideia de uma trégua comemorativa no dia 9 de maio. Em encontro com a tripulação da missão Artemis II na Casa Branca, o ex-presidente disse ter encorajado Putin a concordar com um "cessar-fogo por um pouco". "Mesmo que fosse apenas uma trégua breve, há tantas mortes...", declarou, em tom que prioriza a contenção imediata das hostilidades.
Trump declarou ainda que teria pressionado o líder russo a encerrar a guerra antes de oferecer apoio externo, e insinuou que interesses terceiros teriam dificultado um eventual acordo anterior. É uma acusação geopolítica que remete aos complexos interesses — visíveis e subterrâneos — que movimentam peças no tabuleiro internacional.
No mesmo diálogo, Putin transmitiu a Trump palavras de solidariedade após um atentado que o presidente americano condenou, e elogiou a extensão do cessar-fogo em relação ao Irã, medida que Moscou vê como promotora de uma janela negocial e de estabilização regional. Ushakov advertiu sobre "consequências extremamente nefastas" caso Estados Unidos e Israel recorram novamente à força no Oriente Médio, e classificou como "totalmente inaceitável e perigosa" a hipótese de uma operação terrestre contra o Irã.
Do ponto de vista analítico, a ligação entre Kremlin e Washington descreve-se como um movimento calculado: oferecer uma pausa tática — a tregua de 9 de maio — enquanto se testa a disposição adversária para barganhar. É, em termos de estratégia, um lance técnico num jogo que envolve múltiplos tabuleiros: Europa, Oriente Médio e a própria narrativa transatlântica. Resta ver se essa oferta se materializará em compromissos verificáveis e se o provável acordo com Kiev, como reivindicado por Moscou, resistirá ao atrito interno e às pressões externas.
Enquanto as potências redesenham fronteiras invisíveis com palavras e condicionamentos, o que está em jogo é a estabilidade dos alicerces diplomáticos que sustentam a ordem internacional. A possível trégua em 9 de maio será um teste — tanto para a vontade russa de consolidar ganhos, quanto para a capacidade ocidental de transformar vantagens diplomáticas em segurança duradoura.