Serhiy Koretsky: o novo premier da Ucrânia que traz a lógica empresarial ao centro do tabuleiro energético
Perfil de Serhiy Koretsky, novo premier da Ucrânia: gestor de Naftogaz, experiência no setor energético e desafios políticos em tempos de guerra.
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Serhiy Koretsky: o novo premier da Ucrânia que traz a lógica empresarial ao centro do tabuleiro energético
Em um movimento que redesenha sutilezas do poder no leste europeu, o presidente Zelensky indicou e a Verkhovna Rada confirmou com 289 votos favoráveis sobre 318 o nome de Serhiy Koretsky como novo primeiro-ministro da Ucrânia. Trata-se de uma mudança significativa: o Executivo passa a ser liderado por um gestor vindo do mundo empresarial e, em particular, do setor energético, num momento em que a segurança de abastecimento permanece sob intenso risco devido à guerra com a Rússia.
Nascido em Lutske, hoje com 48 anos, Serhiy Koretsky construiu uma carreira longa no setor privado e fez a transição ao setor público apenas em novembro de 2022. Formado em engenharia automotiva, economia empresarial e produção de petróleo e gás, com um Executive MBA pela Kyiv-Mohyla Business School, Koretsky acumulou quase duas décadas no grupo Continuum e comandou a rede de postos WOG, uma das maiores da Ucrânia. Também liderou iniciativas privadas, como a cadeia de cafeterias Idealiste e esteve ligado à trading suíça Centurion Group SA.
No serviço público, assumiu a direção de Ukrnafta e Ukrtatnafta, empresas estatais estratégicas da cadeia de petróleo e refino, e, em abril de 2025, foi nomeado CEO da estatal Naftogaz. Como chefe da principal companhia energética ucraniana, ficou responsável por medidas urgentes: aumentar a produção interna de gás, modernizar instalações e blindar o sistema energético para as severas estações frias, enquanto infraestruturas críticas continuavam sendo alvo de ataques russos.
A escolha de um tecnocrata do setor energético aponta para uma leitura pragmática do momento: em vez de uma figura político-partidária tradicional, Kiev aposta num operador que conhece os fluxos industriais, os mercados de energia e a logística de infraestrutura — competências consideradas vitais para manter a resistência económica e civil. No entanto, a biografia de Koretsky não é imune à controvérsia: durante sua gestão em empresas estatais de refino foi relatada uma acusação relacionada a "operações especulativas" na transferência de ativos associados ao grupo Privat. A natureza e o desdobramento dessas alegações deverão ser escrutinados com cuidado, sem acelerar julgamentos num momento em que a estabilidade institucional é primordial.
Politicamente, a troca no gabinete faz parte de um rimpasto maior anunciado por Zelensky, que incluiu a saída da primeira-ministra anterior, Yulia Svyrydenko — cuja nova função ainda não foi confirmada oficialmente, mas que, segundo rumores, poderá assumir papel diplomático em Washington. A movimentação sugere um redesenho das prioridades de Kiev: ênfase na produção de defesa (incluindo a produção de sistemas como os Patriot, conforme sinalizações oficiais) e na aceleração do processo de adesão à União Europeia.
Do ponto de vista estratégico, a nomeação de Serhiy Koretsky pode ser lida como um movimento decisivo no tabuleiro: busca-se consolidar os alicerces industriais e energéticos que sustentam a resiliência do país. Em termos geopolíticos, trata-se de ajustar a tectônica de poder interno para resistir a pressões externas, mantendo a máquina estatal funcional apesar dos choques bélicos.
Restam incógnitas relevantes. Como o novo premiê transitará da gestão corporativa para a coordenação política ampla, envolvendo segurança, relações exteriores e reformas internas? Qual será o tratamento dado às questões judiciais ou administrativas pendentes, como as acusações ligadas ao episódio do Privat? E, ainda, até que ponto o perfil tecnocrata conseguirá articular maiorias políticas duradouras na Verkhovna Rada?
Enquanto essas respostas se desenham, a nomeação de Koretsky representa, em termos práticos, a escolha por um comandante do sistema energético como novo coordenador do governo — uma jogada estratégica que reflete a centralidade da energia na sobrevivência e na projeção internacional da Ucrânia num contexto de guerra prolongada. A prioridade imediata será transformar know-how técnico em políticas que protejam infraestrutura, garantam fornecimentos e preservem a coesão social e internacional do país.
Marco Severini — Espresso Italia