No tabuleiro de Gaza, Shireen Al-Kurdi tece sorrisos com bonecas de crochê em uma tenda no campo Al-Bureij
Em Al-Bureij, Shireen Al-Kurdi fabrica bonecas de crochê para crianças de Gaza, tecendo resistência e alegria em meio ao deslocamento e à escassez.
RESUMO ✦
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No tabuleiro de Gaza, Shireen Al-Kurdi tece sorrisos com bonecas de crochê em uma tenda no campo Al-Bureij
Num recanto do campo de refugiados de Al-Bureij, no centro de Gaza, uma pequena oficina improvisada ganhou forma dentro de uma tenda. Ali, sob a luz precária de uma lanterna e rodeada por novelos coloridos, Shireen Al-Kurdi confecciona, com paciência e técnica, bonecas de crochê destinadas a crianças que, pela violência e pelas restrições, perderam até o direito aos brinquedos mais simples.
Shireen, 36 anos, é formada em língua árabe e mãe de cinco filhos. Nem ela nem o marido — também formado em árabe — chegaram a ter oportunidades de emprego estável. Com o início da guerra, a família de Shireen foi forçada a deixar Jabalia; outra residência familiar, em Beit Hanoun, também foi destruída. Após múltiplos deslocamentos, o percurso terminou na tenda em Al-Bureij, onde ela decidiu reerguer-se a partir do nada.
A ideia de produzir bonecas de crochê nasceu observando os próprios filhos: a alegria diante de brinquedos feitos à mão mostrou a Shireen uma necessidade real entre as crianças ao redor. Com a entrada de brinquedos em Gaza fortemente restringida, aquela habilidade artesanal passou a ser não apenas uma forma de renda, mas um gesto de intervenção social — uma maneira de restituir, ainda que simbolicamente, elementos da infância.
Antes dos ataques, Shireen dispunha de um espaço de trabalho em casa, com ferramentas e materiais que foram aniquilados pelos bombardeios. Hoje, ela precisa adquirir matéria-prima a preços muito superiores aos de antes, o que impõe um dilema entre custo e acessibilidade. Apesar do encarecimento, ela se esforça para manter o preço de cada peça baixo — porque, explica, o objetivo é espalhar prazer onde a escassez insiste em dominar.
Cada boneca exige cerca de 14 horas de trabalho contínuo. Os dias de Shireen podem se estender por até 18 horas, em condições que carecem até do mínimo necessário para um ateliê: sem eletricidade e sem iluminação adequada, a costureira trabalha à noite com uma lanterna após dedicar o dia aos cuidados dos filhos. "Trabalho à noite com lanterna. É exaustivo, mas quando vejo uma criança sorrir, todo o cansaço some", diz ela com a calma de quem conhece o preço da resistência.
À medida que se aproxima um período sazonal marcado, antes da guerra, por mercados repletos de brinquedos, a realidade atual revela prateleiras vazias e rostos infantis sem a imaginação materializada em presentes. O artesanato de Shireen não resolve a crise humanitária nem tampouco substitui políticas públicas: é, contudo, um movimento tático no tabuleiro social, uma tentativa de preservar pedaços da infância e de recompor, em pequena escala, os alicerces frágeis da normalidade.
Como analista que observa as linhas de força geopolíticas, enxergo nesta iniciativa a textura de uma resistência civil, onde atos cotidianos — a escolha de um fio, um ponto bem dado, uma boneca nas mãos de uma criança — traduzem uma resposta cultural à desarticulação causada pela guerra. São movimentos de humanidade que, embora incapazes de redesenhar fronteiras, marcam territórios simbólicos: preservam memória, cuidam de afetos e mantêm viva a noção de futuro.
Shireen continua, noite após noite, a fiar cor e forma na esperança de que, entrelaçando fios, se teça também a possibilidade de sorrisos futuros. Em um cenário de tensões e desalinhamentos, sua oficina na tenda é um lembrete de que a estabilidade das relações humanas se constrói tanto nas grandes negociações diplomáticas quanto nas pequenas decisões de quem escolhe contrapor destruição por meio da criação.


