Tamir Pardo: ex-chefe do Mossad denuncia violência de colonos na Cisjordânia e diz sentir vergonha
Tamir Pardo, ex-chefe do Mossad, testemunha violência de colonos na Cisjordânia e declara vergonha; alerta para risco estratégico e permissividade política.
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Tamir Pardo: ex-chefe do Mossad denuncia violência de colonos na Cisjordânia e diz sentir vergonha
Por Marco Severini — Em uma reportagem transmitida pela emissora israelense Channel 13, o ex-chefe do Mossad, Tamir Pardo, percorreu aldeias da Cisjordânia acompanhado por outros ex-altos responsáveis pela segurança de Israel e testemunhou cenas de violência e intimidação praticadas por colonos contra residentes palestinos. O diagnóstico é direto e alarmante: o que se vê hoje no território ocupado constitui uma erosão deliberada da autoridade do Estado e um risco estratégico de longo prazo.
No roteiro da visita, que inclui os vilarejos de Burin e Hamra, moradores palestinos relatam agressões dentro de suas casas e nas ruas, roubo de rebanhos, mutilações com bastões e humilhações de caráter sexual — entre elas, depoimentos sobre amarrações com abraçadeiras plásticas. Há também relatos sistemáticos de sabotagem a reservatórios de água e de intimidações públicas, com arrojo verbal dos agressores: “somos nós os judeus, somos nós”, gritaram em alguns episódios, sublinhando a pretensão de exclusividade territorial.
As imagens coletadas pela equipe do Channel 13 mostram ataques captados por celulares, muitas vezes de longe, e filmagens de indivíduos agredindo moradores. Um homem identificado em diversos vídeos não quis comentar à equipe em campo; em estúdio, contudo, chegou a descrever o quadro como parte de um processo de “limpeza” ou “despejo” em curso na região.
Para Pardo, a situação tem dimensões históricas e morais. Ele afirmou que “o Estado decidiu assentar as bases para o próximo 7 de outubro”, numa referência explícita à data do atentado que motivou a guerra em Gaza — e advertiu que o próximo episódio terá uma configuração ainda mais cruel, dada a complexidade demográfica e administrativa da região. Em termos pessoais, Pardo evocou a memória familiar: sua mãe sobreviveu ao Holocausto, e aquilo que viu na Cisjordânia trouxe reminiscências traumáticas do século passado. “O que vi hoje me fez vergonhar de ser judeu”, disse ele, em uma declaração que reverberou com intensidade.
Os relatos colhidos vinculam a escalada de agressões a um ambiente político permissivo. Ministros de tendência extremista no governo de Benjamin Netanyahu, em particular o titular da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, e o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, são apontados como sustentáculos políticos dessas operações, com influência sobre a polícia e as prerrogativas administrativas nas zonas ocupadas.
Amram Mizna, ex-chefe do Comando Central das Forças de Defesa de Israel, que acompanhou a visita, confessou aos palestinos presentes que, diante das provas documentais e dos testemunhos, sentia profunda vergonha. A declaração traduz não apenas um sentimento ético, mas uma constatação da fratura institucional: quando oficiais veteranos testemunham impunidade, a credibilidade do aparelho de segurança e do próprio Estado fica comprometida.
Do ponto de vista estratégico, o relato de Pardo e de seus colegas funciona como um alerta sobre a tectônica de poder que está em curso: permitir ou legitimar atos de impunidade em territórios administrados por Israel não é apenas uma falha humanitária; é um movimento que redesenha, de forma invisível e cumulativa, as fronteiras efetivas do controle e amplia riscos de conflito futuro. Em linguagem de tabuleiro, trata-se de um avanço de peças sem coordenação, que pode forçar respostas em cadeia de efeito imprevisível.
A reportagem do Channel 13, somada às reações de ex-responsáveis militares, lança perguntas difíceis sobre responsabilidade política, capacidade de governança e o caminho escolhido pelo governo em relação à ocupação. Mais do que manchete, é uma análise do alicerce moral e estratégico que agora se apresenta fragilizado — uma advertência que exige resposta concreta, institucional e compassiva, se se deseja preservar alguma estabilidade de longo prazo na região.