Três anos do 7 de outubro: Baskin vê Hamas reduzido, mas a paz continua distante
Gershon Baskin avalia, três anos após 7 de outubro, o declínio de Hamas em Gaza e a urgência de um plano de reconstrução e estabilização.
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Três anos do 7 de outubro: Baskin vê Hamas reduzido, mas a paz continua distante
Por Marco Severini — Em análise sóbria e de longo prazo, o veterano negociador israelense Gershon Baskin descreve as transformações que atingiram Hamas após o massacre de 7 de outubro. Em diálogo com a imprensa, Baskin — conhecido por ter conduzido o canal secreto que levou à libertação do soldado Gilad Shalit em 2011 — traça um panorama em que a organização aparece claramente redimensionada, mas onde os alicerces frágeis da diplomacia e a perda de esperança em uma convivência pacífica permanecem como fatores decisivos.
Segundo Baskin, Hamas já não é uma entidade monolítica: existem vozes internas e tensões que ficaram evidentes na recente eleição de liderança, vencida por Khalil Al-Hayya por apenas um voto de diferença. Essa dinâmica interna demonstra, na linguagem do tabuleiro estratégico, movimentos de peças com objetivos divergentes, mas sem um xeque-mate interno que resulte em ruptura pública entre facções.
O quadro se complica quando se diferencia a realidade de Gaza daquela da liderança externa. Dentro da faixa, a população sofre «condições de miséria», observa Baskin, e o apoio popular a Hamas é, na sua avaliação, mínimo. Em contraste, a liderança no exílio adota posturas mais radicais, alimentando uma imagem ampliada e às vezes sopravvalorizada em Israel sobre a sua capacidade de retaliação e reorganização.
No contexto da Cisjordânia, Baskin aponta que a presença de Hamas é fragmentada e sob pressão tanto de Israel quanto da Autoridade Nacional Palestina. Ali, a organização não dispõe de uma estrutura eficaz e o seu real apoio popular é incerto, o que reforça a tese de um processo de erosão da influência de Hamas nestes três anos de conflito.
Para o analista, a perceção israelense tende a superestimar a força do grupo: «fala-se frequentemente de rearmamento e reorganização, mas a realidade no terreno diz outra coisa», afirma. Ainda assim, Baskin mantém a convicção de que canais de comunicação diretos — aqueles mesmos que ele ajudou a manter — continuam essenciais para salvar vidas, negociar a libertação de reféns e viabilizar cessar-fogos.
O estrategista sublinha a necessidade de um plano pós-eleitoral israelense centrado na reconstrução, no reestabelecimento da ordem através de forças policiais palestinas e na implantação de uma força internacional de estabilização em Gaza. A chegada de um comitê técnico à faixa, segundo ele, pode acelerar a redução do papel de Hamas, criando espaço para políticas de recuperação e saneamento das estruturas sociais.
Minha leitura diplomática: estes desenvolvimentos configuram um redesenho sutil de fronteiras de influência — uma tectônica de poder onde as camadas externas e internas de autoridade se deslocam sem, contudo, gerar soluções definitivas. A esperança de convivência foi abalada profundamente pelo trauma de 7 de outubro; resta aos estrategistas e diplomatas reconstruir, com paciência e método, os alicerces de uma paz crível. No tabuleiro, movimentos táticos importam; mas são as jogadas de longo prazo — reconstrução, legitimidade institucional e estabilidade externa — que definirão se o xeque-mate poderá algum dia ser substituído por um acordo duradouro.

