Trump determina retorno às catapultas a vapor em porta-aviões: ruptura com a era EMALS

Trump ordena troca do EMALS por catapultas a vapor em porta-aviões e prioriza tecnologia comprovada e capacidade industrial nacional.

Trump determina retorno às catapultas a vapor em porta-aviões: ruptura com a era EMALS

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Trump determina retorno às catapultas a vapor em porta-aviões: ruptura com a era EMALS

Por Marco Severini — A decisão de Donald Trump de ordenar o retorno das catapultas a vapor nas porta-aviões norte-americanas representa um movimento estratégico tão simbólico quanto prático no novo memorandum assinado em 13 de agosto de 2026. O documento exige que o chamado Departamento da Guerra, em colaboração com a Marinha americana, apresente em 60 dias um plano para substituir, na CVN-81 USS Doris Miller, o sistema de lançamento eletromagnético EMALS (Electromagnetic Aircraft Launch System) por sistemas a vapor, bem como converter os elevadores eletromagnéticos de armamentos para sistemas hidráulicos.

Trata-se de uma inversão clara da linha tecnológica inaugurada pela classe Gerald R. Ford. O EMALS foi desenvolvido para suplantar as catapultas C-13 a vapor com o argumento de redução de pessoal e manutenção, maior confiabilidade e controle mais preciso da aceleração de lançamento. Enquanto as catapultas a vapor aproveitam a pressão gerada pelo sistema de caldeiras do navio, o EMALS opera por armazenamento elétrico e conversores em estado sólido, recorrentemente geridos por controles computadorizados. A Marinha, em documentos oficiais, vinha defendendo o EMALS como uma solução de longo prazo, mais flexível e com menores custos operacionais relacionados a tripulação e manutenção.

O memorandum presidencial, porém, parte de outra premissa: a fragilidade atual reside na excessiva complexidade dos projetos, acompanhada por atrasos, escalada de custos e uma indústria naval incapaz de absorver e replicar soluções sofisticadas em escala. A orientação explícita do texto é priorizar tecnologias "proven, reliable, and affordable": testadas, confiáveis e economicamente sustentáveis. Em termos de Realpolitik industrial, é um recuo calculado em favor da previsibilidade e da capacidade produtiva nacional — uma escolha de estabilidade sobre experimentação rápida.

Mas a disputa sobre catapultas não é um detalhe técnico: é uma peça num redimensionamento estratégico maior. O plano presidencial inclui expansão da capacidade produtiva doméstica, estímulo à concorrência entre os estaleiros e, em circunstâncias específicas, a permissão para uso temporário de estaleiros estrangeiros. O chamado "Finland Model" citado no texto permitiria que um fornecedor estrangeiro participasse da construção de algumas embarcações, desde que isto venha com investimento em capacidade americana, transferência de know-how e formação de mão de obra local — um movimento que visa reconstruir alicerces industriais e evitar dependências críticas.

Além disso, o memorandum ordena a elaboração de um plano para criar uma quinta base naval pública, destinada sobretudo a aumentar a capacidade de manutenção. Embora o texto reflita uma preocupação logística e industrial imediata, a sua ressonância geopolítica é evidente: trata-se de reposicionar a capacidade operativa dos Estados Unidos num momento de crescente tensão entre blocos e de reconfiguração das linhas de influência globais.

Do ponto de vista estratégico, este é um movimento que lembra um xeque no tabuleiro: não se trata apenas de trocar tecnologia, mas de redesenhar as linhas de sustentação da marinha enquanto instrumento de poder. A preferência por soluções comprovadas reduz riscos técnicos, mas pode retardar a incorporação de capacidades que, no médio prazo, oferecem vantagens operacionais. Em suma, é um balanço entre robustez industrial e avanço tecnológico — uma decisão que moldará não apenas a logística das frotas, mas também a arquitetura da influência americana nos mares.

Como analista, insisto que esta iniciativa deve ser lida em duas camadas: a imediata, de economia e produção, e a estrutural, de tectônica de poder. Ao ordenar o retorno às catapultas a vapor, a administração busca recuperar controle sobre prazos, custos e know-how, ao mesmo tempo em que restabelece uma base industrial que funcione como suporte estratégico em um mundo onde as fronteiras da influência são cada vez mais disputadas.