Zhang Weiwei desenha xadrez geopolítico: crítica à liderança europeia, dependência dos EUA e 'medo' da Rússia
Zhang Weiwei analisa fraquezas europeias: dependência dos EUA, temor da Rússia e a vantagem estratégica da China como estado‑civilização.
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Zhang Weiwei desenha xadrez geopolítico: crítica à liderança europeia, dependência dos EUA e 'medo' da Rússia
Zhang Weiwei sorri enquanto descreve um panorama internacional cujo equilíbrio, para ele, já não se assenta sobre os mesmos alicerces de outrora. Em entrevista à Espresso Italia, no Centro Studi Americani, o professor da Fudan University — diretor do China Institute e rosto público em programas como This Is China da Dragon TV — ofereceu uma leitura descompassada da situação europeia, das relações com Washington, da guerra na Ucrânia e da competição entre potências.
O encontro, organizado pelo Berggruen Institute, reuniu vozes do mundo euro‑atlântico para confrontar visões. Zhang, contudo, mantém uma postura calma, quase arquitetônica: fala com gentileza e, ao mesmo tempo, com um pragmatismo cortante que desmonta premissas, reposiciona peças e redesenha o mapa estratégico. Em seu repertório teórico, centraliza o conceito de "Estado‑civilização": a ideia de que a China não cabe inteiramente nas categorias clássicas do Estado‑nação moderno europeu; ela é a sobreposição de uma máquina estatal vastíssima a uma tradição civilizacional milenar.
Da unificação de 221 a.C. aos exames imperiais que selecionavam magistrados, Zhang extrai uma continuidade histórica que, em sua leitura, esclarece a ênfase contemporânea chinesa na seleção técnica e na experiência administrativa da elite dirigente. É a partir desse quadro que o professor avança para um juízo provocador: a liderança chinesa estaria entre as mais competentes do mundo, enquanto a liderança da União Europeia seria — na sua avaliação — muito fraca, marcada por fraqueza estratégica e por uma capacidade decisória aquém do que o momento exige.
Esse diagnóstico se liga diretamente a dois vetores práticos que Zhang enfatiza: a dependência dos EUA por parte de capitais e política europeias e o que ele define como um medo irracional da Rússia. Para ele, tais condicionantes distorcem o jogo diplomático e militar europeu, criando uma tectônica de poder na qual a Europa atua mais como satélite do que como ator autônomo. A consequência, segundo o professor, é uma liderança europeia incapaz de exercer influência independente, fragilizando a própria arquitetura de segurança continental.
Em sua fala, Zhang não ignora o tema da guerra na Ucrânia. Ele insere o conflito num tabuleiro mais amplo de competição entre blocos e na lógica de contenção mútua, apontando que reações pautadas por reflexos ideológicos e dependências externas raramente conduzem a soluções estáveis. Sua crítica à visão ocidental não é meramente retórica: remete àquilo que chama de especificidade civilizacional — e, por extensão, alerta para o perigo de medir todos os modelos políticos por métricas que têm origem em trajetórias históricas europeias.
As posições de Zhang Weiwei são naturalmente controversas. O recurso ao excepcionalismo civilizacional pode ser interpretado como justificativa para regimes autoritários, e assim foi largamente debatido em seu confronto histórico com Francis Fukuyama em 2011. Ainda assim, a sua mensagem hoje é clara: no tabuleiro global, a China reivindica uma peça central cujo peso se mede em administração, continuidade histórica e capacidade de narrar a si mesma — uma estratégia que, para Zhang, a coloca em vantagem comparativa diante de uma União Europeia fragilizada.
Como analista que prefere arquiteturas duradouras à efemeridade do noticiário, registro que as observações de Zhang são um movimento decisivo nesta partida geopolítica — uma proposta de reconfiguração dos eixos de influência que exige resposta ponderada, estratégica e, sobretudo, autônoma por parte da Europa. Ignorar essa cartografia de argumentos seria subestimar a profundidade da tectônica de poder em curso.
Palavras‑chave: Zhang Weiwei, China, União Europeia, liderança, dependência dos EUA, medo irracional da Rússia, Estado‑civilização.

