Luisa Vuillermoz no Gran Paradiso: entre domínio e coesistência, o futuro das espécies
Luisa Vuillermoz fala sobre o Gran Paradiso Film Festival, domínio e coesistência e a necessidade de proteger espécies como o stambecco com visão sistêmica.
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Luisa Vuillermoz no Gran Paradiso: entre domínio e coesistência, o futuro das espécies
Por Aurora Bellini — Em entrevista exclusiva à Espresso Italia, a diretora artística Luisa Vuillermoz traça um retrato lúcido e iluminado do Gran Paradiso Film Festival e da urgência de repensarmos nossa relação com a natureza. “Nenhuma espécie sobrevive isolada”, afirma ela, sublinhando que pensar em colocar novamente o stambecco no alvo do caçador seria um erro histórico e ético.
O festival, que alcança agora sua 29ª edição — a primeira foi realizada há 42 anos — estreou em Cogne com dois filmes franceses em competição: Le chant des forêts, do premiado Vincent Munier, e Pelagos, voyage au large de la Méditerranée, de Frédéric Larreye e Thomas Roger. Do total de 244 obras inscritas, 19 chegaram à seleção final. São 14 estreias italianas e 3 estreias mundiais num programa que se desdobra por 18 dias em 9 localidades das valli valdostane do Gran Paradiso.
Além das exibições, o festival apresenta um rico programa paralelo: 102 eventos, entre 80 projeções, 3 mostras, debates e iniciativas que aproximam o olhar cinematográfico da ciência, da cultura e da vida cotidiana. Entre os nomes do cartel, figuram cineastas de peso internacional, como a vencedora do Oscar Pippa Ehrlich e o também premiado Vincent Munier. É, nas palavras de Luisa, uma ocasião para “criar conhecimento, confronto e consciência”.
O tema escolhido — "Dominio e coesistenza" — é proposta de reflexão: não se trata de um oxímoro, mas de uma descrição honesta do nosso laço com o vivo. A diretora observa que a natureza vive da tensão entre opostos: nascer e morrer, defender e acolher, pertencer e libertar. Esse tecido de contradições é também o palco em que se discutem as políticas de conservação e a gestão de espécies como o urso e o lobo, que, ressalta Vuillermoz, não são apenas “ameaças” nem símbolos bucólicos — são elementos de uma coabitação complexa.
Para enfrentar essa complexidade — ela diz — são necessárias cultura, tempo, competência e coragem. Essas qualidades, como raios que clareiam uma paisagem em transformação, permitem deslocar o debate das reações imediatas para soluções estruturadas: monitoramento científico, educação ambiental, diálogo com comunidades locais e políticas públicas que considerem redes ecológicas inteiras e não apenas espécies isoladas.
O festival, ao combinar cinema e ciência, se propõe a iluminar caminhos possíveis para uma convivência responsável. Filmes, conversas e exposições atuam como radicais de empatia: trazem histórias de resistência animal e humana, mostram como ecossistemas se entrelaçam e lembram que reintroduções, intervenções e manejos exigem visão sistêmica.
Entre cenas de montanha e olhares documentais, Vuillermoz nos convida a cultivar um horizonte límpido: preservar o stambecco — quando necessário — no contexto de toda a teia de vida, e não como troféu que legitima velhos instintos de domínio. É um chamado para semear inovação, tecer laços sociais e garantir um legado onde convivência e respeito sejam mais que palavras, sejam práticas.
O Gran Paradiso Film Festival reafirma assim sua vocação: ser farol para o debate público, espaço de formação e celebração da diversidade. Em tempos de desafios ambientais, a arte e a ciência, juntas, podem iluminar novos caminhos e inspirar políticas e atitudes que garantam um futuro mais equitativo para todas as espécies.