25 de abril: a festa da vaidade antifascista que divide a cena política
Análise crítica sobre como o 25 de abril virou uma celebração de vaidades e divisões, entre sindicatos, artistas e debates públicos.
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25 de abril: a festa da vaidade antifascista que divide a cena política
Por Giuseppe Borgo - 25 de abril de 2026
O debate sobre o significado da Libertação parece cada vez mais uma mostra de vaidades e intolerâncias destinada ao público dos mesmos de sempre. O rito anual do 25 de abril, nascido como memória vital da queda do fascismo, converteu-se em muitos cenários em palco de confrontos simbólicos e em instrumento de propaganda, onde a palavra liberdade é muitas vezes apropriada apenas por quem define as regras do discurso.
De um lado, há quem reclame que a data deva ser preservada como alicerce da nossa democracia e mantida na vitrine da memória coletiva. De outro, cresce a crítica de que o 25 de abril foi transformado numa solenidade divisiva, repetitiva e cristalizada, incapaz de acolher dissensos e novas leituras, e usada para estigmatizar adversários políticos.
O aparato do feriado, que se repete também no chamado Concertone do Primeiro de Maio, voltou a expor essa contradição: artistas nomeados, homenagens, cantorias políticas e discursos que, segundo críticos, servem mais ao protagonismo oportunista do que à reflexão histórica. Sindicatos como a CGIL e estruturas como a Fiom aparecem no centro dessas manifestações, acusadas por alguns setores de legitimar grupos radicais — das siglas neobrigatistas aos movimentos extraparlamentares — em nome de uma interpretação hegemônica da antifascismo.
Na mesma linha de contestação, surgem episódios como a recusa de autorizar encontros considerados anti‑antifascistas em locais simbólicos, como Predappio, onde as desculpas formais — risco de desabamento do imóvel — soam insuficientes para quem entende que o verdadeiro argumento é decidir quem pode falar em nome da democracia. Nomes como Roberto Fiore, grupos culturais e bandas históricas, das quais se espera a aparência de um último giro de roda, entram neste tabuleiro de exclusões e concessões.
Mais do que polemizar por si, é necessário perguntar: que tipo de memória pública queremos construir? A arquitetura do memorial republicano corre o risco de se tornar um gueto retórico onde só a liturgia habitual é autorizada. E, ao mesmo tempo, surgem acusações mais amplas e polêmicas — sobre novos autoritarismos sanitários, sobre a imprensa, sobre formas contemporâneas de censura cultural e sobre o que alguns descrevem como uma conivência com correntes extremas — que alimentam, igualmente, o clima de desconfiança.
Enquanto isso, a classe política parece hesitante: a direita que se diz moderada evita confrontos diretos com a esquerda para não perturbar o poder real dos tribunais, da burocracia e de parte da mídia. O resultado é uma paisagem cívica fragmentada, onde a celebração da Libertação acaba servindo de instrumento para quem pretende manter ou ampliar sua influência.
Como repórter e cidadão, entendo que a construção de direitos exige coragem para abrir espaços de debate e derrubar as barreiras burocráticas que silenciam vozes divergentes. Agendas de memória não podem se transformar em vitrines imobilizadas. Precisamos de uma ponte entre passado e presente que permita compreender o sentido histórico do 25 de abril sem transformá‑lo em bandeira de uso exclusivo.
O desafio concreto é reequilibrar a cena pública: garantir que a lembrança do antifascismo continue a ser um alicerce democrático, sem se tornar ferramenta de exclusão. Só assim a celebração deixará de ser uma «fiera delle vanità» e voltará a cumprir sua função original — educar, lembrar e unir em torno dos princípios da liberdade e do respeito à pluralidade.