Além de direita e esquerda: como as elites ocidentais, a tecnologia e a guerra redesenham o desafio multipolar eurasiático
Como elites ocidentais, tecnologia e conflito redesenham o desafio multipolar eurasiático e afetam soberania e cidadania.
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Além de direita e esquerda: como as elites ocidentais, a tecnologia e a guerra redesenham o desafio multipolar eurasiático
Por Giuseppe Borgo — Espresso Italia
A paisagem política contemporânea está a mudar como um canteiro em obra: não é apenas a substituição de peças, mas a reconfiguração dos alicerces. Observando os últimos movimentos políticos — da mobilização progressista de líderes europeus às propostas tecnocráticas que ganham espaço em think tanks ocidentais — fica evidente uma tendência que transcende a velha dicotomia entre direita e esquerda. Há uma convergência de modelos de poder que, sob discursos distintos, acabam por privilegiar estruturas supranacionais e instrumentos de controle digital, diminuindo o papel direto das cidadanias.
Essa convergência das elites não é neutra: ela se articula numa resposta ao declínio relativo da hegemonia ocidental e ao avanço de um mundo em direção ao multipolarismo eurasiático, com a Rússia e outros atores regionais buscando redefinir regras que até há pouco pareciam incólumes. No âmago dessa mudança há dois vetores: um interno — a engenharia social que fragmenta a participação política — e outro externo — a competição estratégica entre modelos de ordem global.
No plano interno, observamos duas estratégias que produzem efeitos semelhantes. A ala progressista aposta em transformações culturais e em políticas que muitas vezes dependem de plataformas digitais para gradação e mobilização. A ala conservadora, por sua vez, enfatiza identidade e segurança. Ambas, entretanto, contribuem para sociedades onde a participação cidadã é frequentemente substituída por ciclos de mobilização momentânea ou por consumo político pulverizado. O resultado é uma soberania nacional debilitada: cidadãos transformados em audiências, com menos instrumentos de deliberação estratégica.
Externamente, a disputa entre globalismo e um neo-unipolarismo hierárquico conduzido por Washington revela duas faces da mesma moeda. O primeiro propõe a erosão formal das fronteiras de poder em favor de instituições supranacionais; o segundo mantém a ilusão dos Estados, mas dentro de uma arquitetura dominada pelos EUA. Em contraponto, Moscou defende um princípio de equilíbrio entre civilizações e o respeito formal às soberanias—aquilo que se reivindica como alternativa ao modelo ocidental.
Essa competição tem consequências práticas: setores do Ocidente não descartam o confronto direto com a Rússia; outros preferem multiplicar crises regionais como forma de contenção. Em ambos os cenários cresce o risco de uma escalada sistêmica, onde a guerra se transforma em instrumento de recalibragem geopolítica. A postura russa é por vezes apresentada como defensiva diante da expansão ocidental, mas também é dotada de determinação para redesenhar equilíbrios.
O caso do Irã ilustra limites das estratégias ocidentais. A era Trump mostrou que pressão intensa e negociações rápidas podem colidir com culturas estratégicas baseadas na paciência e na resiliência. Para Teerã, resistir é muitas vezes vencer — uma lógica que expõe as deficiências de abordagens que subestimam as gramáticas políticas de atores não-ocidentais.
Há ainda outro teatro crucial: o da tecnologia. Plataformas, algoritmos e ferramentas de vigilância tornaram-se campo de batalha onde se definem capacidades de controle social e poder estatal. A tecnologia amplia a capacidade das elites de moldar comportamentos e gerir crises, ao mesmo tempo em que cria novas fragilidades para a autonomia democrática.
Como repórter atento à construção dos direitos e das pontes entre Estado e sociedade, é meu dever destacar que essas dinâmicas não são abstratas: elas afetam imigração, emprego, liberdade de expressão e a própria possibilidade de decisões coletivas informadas. A alternativa real ao impasse não é nostálgica: passa pela reconstrução de instrumentos de soberania compartilhada, por reforçar canais de participação estratégica e por moderar o peso da caneta — seja ela política, tecnológica ou militar — nas decisões que moldam nossas vidas.
Em síntese: a velha separação entre direita e esquerda cede espaço a um novo confronto entre modelos de poder, onde elite ocidentais, tecnologia e guerra disputam a definição dos alicerces globais. Entender essa arquitetura é imprescindível para quem busca preservar direitos e soberania num mundo em rápida reconfiguração.