Aurelio Locatelli, o motorista histórico de Bossi: “Amou o povo e recebeu tanto amor”
Aurelio Locatelli, motorista histórico de Umberto Bossi, fala sobre humanidade, política simples e o legado do líder da Lega.
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Aurelio Locatelli, o motorista histórico de Bossi: “Amou o povo e recebeu tanto amor”
Por Giuseppe Borgo, Espresso Italia — Aurelio Locatelli, natural de Gorlago, é um homem de porte robusto, de aparência por vezes austera, que dedicou à Lega grande parte da sua vida. Desde os anos 1990, tornou-se uma das colunas do serviço de segurança pessoal organizado por Massimo Dolazza em torno de Umberto Bossi, formado majoritariamente por homens de Bergamo.
Não se trata de um motorista qualquer: foi o “Aurelio” ao volante do carro do senatore na noite em que Bossi sofreu o mal-estar, em março de 2004. Depois daquele episódio, Locatelli seguiu atuando como condutor e membro da retaguarda de líderes do partido — prestou serviço também para Giancarlo Giorgetti e para Matteo Salvini, até a mudança deste último para Roma em 2018, quando assumiu o Ministério do Interior.
Nos anos em que esteve mais próximo dos palcos da política, Locatelli chegou a ser eleito representante no conselho federal da Lega, um testemunho da confiança que lhe foi depositada nos alicerces do partido. Homem de poucas entrevistas, costuma manter-se recluso diante da imprensa; ainda assim, quando fala de Bossi a voz assume o tom do militante fiel.
“Muitos jornalistas e opinadores tentaram transformar Bossi no que ele não era”, desabafa Locatelli em entrevista exclusiva. “Zombaram dele, exageraram e inflaram detalhes, esquecendo o que realmente importava: as coisas simples e significativas que tocavam as pessoas comuns, o povo”.
O motorista recorda, com a precisão de quem trabalhou no cotidiano da preservação física e política, a humanidade de Bossi. “Eu amei a sua humanidade, a sua capacidade de fazer política a partir das coisas simples e das pessoas simples”, diz. É uma defesa que reconstrói, tijolo por tijolo, a imagem de um estilo político que, para Locatelli, se perdeu.
“Com ele definitivamente se pôs fim a um modo de fazer política que eu amava. Para mim, morreu um homem político que amou o povo e, em troca, recebeu muito amor”, conclui, com amargura. “Coisas difíceis de entender para quem não quer ver a realidade”, acrescenta, apontando para uma visão pública e mediática que, segundo ele, errou ao colocar o foco nas ruínas e não nos fundamentos.
O depoimento de Aurelio Locatelli funciona como uma ponte entre memórias privadas e o relato público da história da Segunda República. Como repórter, registro que sua fala não é uma apologia acrítica: é um testemunho de bastidores que ajuda a reconstruir a arquitetura humana por trás das decisões e dos ritos políticos — um lembrete de que, por trás do peso da caneta e dos discursos, existem relações simples que moldam a vida pública.
Em tempos de debates sobre memória e legado, a fala de Locatelli convida a reavaliar não apenas o personagem, mas também o modo como a imprensa e a opinião pública constroem as narrativas. E lembra que, muitas vezes, os alicerces da política são erigidos no contato direto com o povo, não apenas nos palácios.