Beppe Grillo acusa o Movimento 5 Stelle: 'Queríamos mudar a política, a política nos mudou'
Beppe Grillo critica o Movimento 5 Stelle: projeto inicial de ruptura foi domesticado pela política e perdeu força transformadora.
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Beppe Grillo acusa o Movimento 5 Stelle: 'Queríamos mudar a política, a política nos mudou'
Por Giuseppe Borgo — Em mais uma intervenção pública, Beppe Grillo, fundador histórico do Movimento 5 Stelle e hoje afastado da direção do partido, fez um diagnóstico curto e incisivo: o movimento que nasceu para transformar a cena política italiana acabou sendo transformado por ela. A frase — simples na forma, pesada no teor — convoca a reflexão sobre como iniciativas de ruptura encontram, no tempo, as forças que as domesticam.
Grillo recorda a ambição fundadora: um movimento que prometia abrir a política como se fosse “uma lata de atum”, rompendo rotinas e privilégios. No início, Movimento 5 Stelle assumia posições claramente contrárias a instituições como a União Europeia e a OTAN, reclamava estar além da dicotomia direita-esquerda e afirmava representar as classes populares nacionais contra um patriziato cosmopolita. Essa era a imagem do projeto como obra em construção — um novo alicerce para a participação cívica.
O ponto de inflexão, segundo Grillo e observadores políticos, ocorreu após o governo giallo-verde de 2018: uma experiência que muitos classificam como a mais disruptiva das últimas décadas na política italiana. No entanto, a partir de 2019 e com o nascimento do governo giallo-fucsia, iniciou-se uma trajetória de declínio e metamorfose. O partido que se pretendia alternativa transformou-se, em ritmo kafkiano, em algo assaz familiar ao establishment que antes criticava — uma espécie de arbusto do próprio Partito Democratico, segundo a leitura crítica.
É legítimo reconhecer que, na geopolítica contemporânea, o Movimento 5 Stelle pode ainda levar posições menos comprometedoras que outras forças; mas isso não apaga a evidência política: muitos dos gestos e retóricas iniciais foram domesticados, diluídos nas rotinas do poder e nas alianças que lhes garantiram lugares nas estruturas do Estado. Trata-se de uma transformação que tem peso concreto — o peso da caneta — e consequências diretas na vida dos cidadãos que acreditaram na promessa de mudança.
A trajetória do M5S lembra, em parte, a experiência espanhola do Podemos: nascimento como movimento de dissenso e terminação como peça menos combativa dentro da esquerda liberal. Ambas as histórias mostram como movimentos de emergência podem perder parte da energia fundadora ao integrar-se às engrenagens institucionais.
Para quem pensa em cidadania como obra coletiva, essa é uma lição prática: as conquistas exigem instrumentos de vigilância e mecanismos de construção de direitos que resistam à erosão das alianças. O desafio hoje é reconstruir pontes entre política e sociedade sem repetir velhos erros, evitando que a arquitetura do voto seja erodida por acomodação e interesses concentrados.
Como repórter e tradutor das decisões de Roma para a vida cotidiana dos cidadãos e imigrantes, concluo que a observação de Beppe Grillo merece ser tomada como um alerta. Se o objetivo era transformar a política, é preciso recuperar ambição e meios para que a política não transforme, novamente, as promessas em rotina.