Constitucionalismo em xeque: Quando a cadeira esquenta, todos correm para a Constituição

Quando a poltrona esquenta, a Constituição vira escudo retórico. Um olhar de realismo jurídico sobre o referendo e a eficácia das normas.

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Constitucionalismo em xeque: Quando a cadeira esquenta, todos correm para a Constituição

Roma — O próximo referendo aproxima-se em meio a uma retórica que busca transformar a Constituição em escudo de conveniência política. Enquanto crises geopolíticas redesenham o mapa do próximo século, aqui em casa o debate público vira campanha de slogans prontos para o rebanho. A ideia mais repetida é simples e emocional: votar "não" salvaria a Constituição. É hora de desmontar, com realismo, esse argumento.

Antes de mais nada, um reconhecimento: ambos os campos políticos — do governo aos principais opositores — têm razões que merecem ser ouvidas. O pleito, no entanto, pela sua tecnicidade, corre o risco de se transformar numa farsa plebiscitária, com a maioria decidindo de acordo com a intuição ou o influenciador de turno. Mas o que me chama atenção é outra coisa: a historicidade e a eficácia real da Constituição no mundo contemporâneo.

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Há quem trate a Carta como um texto sacralizado, um alicerce imutável. Eu, como repórter que observa a interação entre estruturas de poder e vida cidadã, vejo de forma diferente. A experiência do lockdown mostrou, com visceralidade, que nas situações de choque o texto constitucional pode valer tão pouco quanto um estatuto esquecido num arquivo. Quando o jogo aperta, as decisões decisivas são os atos de governo e as ordens administrativas, nem sempre sob o peso da letra constitucional. É uma dureza pragmática: a norma existe enquanto é eficaz; se ninguém a aplica, ela torna-se ornamental.

Contrastemos duas atitudes interpretativas. O normativismo lê a lei pela letra, confere ao texto uma autoridade que, por si só, legitima sua continuidade. Já o realismo jurídico, que defendo aqui, mensura a validade normativa pela força prática: normas que ninguém cumpre perdem sua condição de comando efetivo. É nesse ponto que se pode afirmar, sem melodrama, que a soberania da Constituição foi abalada no pós‑pandemia: não por uma ab-rogação formal, mas pela erosão de sua eficácia real.

Este processo tem consequências políticas imediatas. Quando a poltrona esquenta, todos correm para a Constituição como se a invocação do texto bastasse para ganhar consenso. Não é raro ver lideranças — inclusive figuras centrais como Meloni, Schlein e Conte — fazerem da Carta um instrumento de mobilização, selecionando capítulos que servem ao momento, ignorando outros. A Constituição, nessas mãos, vira uma ferramenta de pilotagem do sentimento público, e não um cimento inalterável para os alicerces da convivência democrática.

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Precisamos, portanto, de uma leitura que una responsabilidade cívica e compreensão da realidade: defender a Constituição enquanto mecanismo de proteção dos direitos exige mais do que palavras. Exige instituições robustas, cultura democrática cotidiana e mecanismos que assegurem eficácia normativa. É como construir uma ponte: não basta elogiar o projeto no papel; é preciso testar os pilares, reforçar as juntas, e manter a manutenção constante.

O referendo, se tratado apenas como escudo retórico, não constrói esses alicerces. Pode até consolidar narrativas, mas não garante que as normas resistam aos choques do futuro. Assim, quem apela ao amor pela Carta precisa explicar como pretende restaurar sua eficácia prática — e não apenas celebrar seu nome em comícios.

Em suma: o debate público deve superar o maniqueísmo do "salvar a Constituição" versus "melhorar as leis". É necessário um diagnóstico honesto sobre como as normas funcionam no terreno, quem as aplica e quem as contorna. Só assim construiremos, tijolo a tijolo, uma arquitetura institucional que não desabe diante do primeiro aperto.

Giuseppe Borgo — Espresso Italia. Observador das estruturas políticas e defensor do rigor acessível: traduzindo as decisões de Roma para a vida dos cidadãos, imigrantes e ítalo‑descendentes.

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