Follini: a perda das lideranças europeias e a rendição ao discurso populista

Follini aponta como queda do comunismo e arrogância das elites abriram espaço para o populismo e a crise das lideranças europeias.

Follini: a perda das lideranças europeias e a rendição ao discurso populista

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Follini: a perda das lideranças europeias e a rendição ao discurso populista

Marco Follini, em seu comentário de 4 de outubro de 2026, traça um diagnóstico duro e esclarecedor sobre a crise das culturas políticas que dominaram a Europa no pós‑guerra: a tradição cristã‑democrática e a social‑democrática. Como repórter político com foco naquilo que determina direitos e deveres cotidianos, observo aqui uma análise que serve como um alicerce para compreender o que se quebrou na arquitetura do nosso consenso político.

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Follini parte de um ponto claro: a queda do Muro de Berlim e o colapso do comunismo soviético não significaram apenas o fim de um adversário histórico. A derrocada teve um efeito inesperado sobre aqueles que, em tese, viriam a ser os beneficiários desse enfraquecimento. Em vez de impulsionar uma renovação responsável das democracias liberais, o desaparecimento do antagonista empurrou parte das classes dirigentes para um estado de autoconfiança excessiva.

O autor aponta que essa condição de hegemonia aparente incentivou o triunfo do mercado livre sem as devidas salvaguardas sociais. Assim, cresceu um sistema marcado por comportamentos socialmente egoístas, que ampliou as desigualdades e minou a sensação de justiça pública — ingredientes que corroem os alicerces da confiança política. Onde antes o medo do comunismo impunha alguma prudência, passou a existir uma convicção de que não haveria necessidade de prestar contas.

É essa erosão de responsabilidade que, segundo Follini, abriu espaço para um novo adversário: o populismo contemporâneo. Não se trata de uma repetição do passado, mas de um fenômeno que se alimenta da insegurança e da sensação de abandono — uma espécie de fissura na ponte entre as instituições e a vida real dos cidadãos. O populismo oferece respostas simples e ruidosas, e as democracias liberais, enfraquecidas e muitas vezes surdas às reclamações sociais, acabam perdendo a disputa moral e simbólica com esse discurso.

Follini chama atenção para uma dinâmica paradoxal: se no início do pós‑1989 houve arrogância por parte das elites, o avanço populista provocou uma reação de aflição, que se traduziu muitas vezes em hesitação e perda de voz das lideranças tradicionais. Em vez de construir reformas claras que restabeleçam a confiança, muitos atores políticos se refugiam em lamentações ou em respostas meramente defensivas — o que, na prática, funciona como uma forma de rendição à pregadura populista.

Como repórter que busca ser a ponte entre Roma e o cidadão comum, lembro que esse diagnóstico tem efeitos práticos: políticas públicas mal desenhadas, enfraquecimento de garantias sociais e um debate público dominado por slogans e polarizações. As consequências recaem sobre imigrantes, ítalo‑descendentes e sobre os cidadãos que dependem de um funcionamento previsível do Estado. Derrubar barreiras burocráticas ou reconstruir sistemas de proteção social exige algo mais do que boas intenções: exige liderança e capacidade de reinvenção.

Follini, portanto, não oferece uma simples condenação moral; ele aponta para a necessidade de introspecção das classes dirigentes e para a urgência de recuperar um projeto político que combine eficiência econômica com justiça social. Em termos de construção cívica, isso significa reconstruir a ponte entre poder e sociedade, reassumir o peso da caneta com responsabilidade e distribuir os benefícios do mercado sem sacrificar coesão social.

O alerta é prático e político: as democracias europeias só sairão do impasse se houver uma leitura honesta dos próprios erros — e uma disposição para reformular a arquitetura das políticas públicas em favor da inclusão. Sem isso, o risco é que a ressonância populista se torne a única linguagem eficaz, e as lideranças tradicionais percam não apenas influência, mas a capacidade de governar para o bem comum.

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