Giuseppe Melzi, preso e arquivado após 12 anos, anuncia voto NÃO ao referendo: “É um golpe político”
Giuseppe Melzi, preso e arquivado após 12 anos, explica por que votará NÃO ao referendo e alerta para risco de golpe político contra a autonomia judicial.
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Giuseppe Melzi, preso e arquivado após 12 anos, anuncia voto NÃO ao referendo: “É um golpe político”
Giuseppe Borgo para Espresso Italia — A defesa da justiça e a denúncia das suas falhas caminham juntas na trajetória de Giuseppe Melzi, advogado milanês conhecido por ter representado, nos anos 1970, poupadores lesados pelo colapso da Banca Privata Italiana de Michele Sindona. Hoje, Melzi anuncia que votará Não no referendo sobre as propostas de alteração constitucional, e explica por que essa escolha nasce tanto da sua biografia pessoal quanto de convicções civis.
“Uma reforma radical da reforma da justiça pode fazer sentido, mas o pacote apresentado pelo governo é um verdadeiro golpe político”, afirma o advogado, num tom que mistura indignação e cautela técnica. Para Melzi, as mudanças propostas não corrigem apenas procedimentos: “elas desconstroem alicerces da lei e fragilizam a autonomia do judiciário”, consequência que considera perigosa para o equilíbrio institucional.
A história pessoal que fundamenta sua posição é dura. Em 1º de fevereiro de 2008, Melzi foi preso acusado de lavagem de dinheiro e de favorecer uma suposta organização mafiosa — acusações que, ao longo de um processo que durou 12 anos, arrancaram dele nove meses de liberdade e três anos e meio de suspensão da ordem profissional. “Fui identificado pela imprensa e por investigações como um aliado de mafiosos; tudo isso acabou arquivado”, recorda.
O desfecho do caso foi a arquivação, mas a notícia nem sequer lhe foi comunicada oficialmente: Melzi descobriu por acaso que o processo estava encerrado. A cena no interrogatório que relata é exemplar do que ele chama de pressão institucional: “Num momento em que estávamos só eu e o magistrado, ele mostrou-me uma chave e disse: ‘Ou o senhor fala, ou eu jogo fora a chave’”. O magistrado que mais o acusou no processo foi Mario Venditti — hoje investigado por suspeitas de corrupção em atos judiciais — um detalhe que Melzi menciona para sublinhar a complexidade e a fragilidade das certezas produzidas em algumas investigações.
Mesmo reconhecendo que o sistema judiciário “funciona mal” e exigindo reformas profundas, Melzi recusa o roteiro do governo. “Não voto contra a ordem judicial por defesa corporativa; eu voto Não porque temo uma deriva autoritária que, através de reformas constitucionais, pode abrir caminho a medidas legislativas que reduzam a independência do poder judiciário e aumentem o poder do executivo”, explica.
Melzi, figura ligada ao ativismo social — fundador da Casa della Carità e próximo a nomes do progressismo católico milanês —, participou de fóruns públicos sobre justiça, juntando vozes diversas, de magistrados a intelectuais. Ainda assim, sua resposta é clara: há reformas necessárias, mas não este conjunto de medidas que, em sua visão, representam uma manobra política destinada a redesenhar a arquitetura do poder.
O caso pessoal que ele viveu serve como aviso prático: “Quando o peso da caneta e do despacho pode arruinar vidas sem contrapesos seguros, precisamos de regras que protejam a presunção de inocência e a independência dos órgãos judiciais”, diz Melzi. Para ele, o voto Não é um “argine” — uma barreira civil — contra o risco de erosão institucional.
Ao fechar a conversa, Melzi faz um apelo à cidadania: pesar consequências, não ceder a maniqueísmos, entender que reformas de verdade constroem direitos e não apenas redesenham prioridades políticas. Em linguagem de quem vê a política como obra pública, conclui: “Não deixemos que derrubem os alicerces da lei só para reconstruir uma fachada à medida do poder de plantão”.


