Hantavírus: recomeça a corrida pela vacina e volta o alarmismo — nasce um novo Leviatão tecnossanitário?
Hantavírus: recomeça a corrida pela vacina e volta o alarmismo; riscos de fortalecer um novo Leviatão tecnossanitário. Transparência e direitos em foco.
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Hantavírus: recomeça a corrida pela vacina e volta o alarmismo — nasce um novo Leviatão tecnossanitário?
Por Giuseppe Borgo — Espresso Italia
A sensação é de déjà vu. O surto de Hantavírus parece reacender memórias da temporada epidêmica iniciada em 2020: o alarmismo mediático já volta a ganhar espaço nas manchetes e, segundo as primeiras notificações, já há registro do primeiro italiano colocado em quarentena. O virologista Burioni entrou em cena publicamente, afirmando que só poderemos respirar aliviados se, em torno de 50 dias, não houver novos contágios.
Imediatamente, recomeça também a corrida pelo soro salvador — a vacina que para as grandes multinacionais do medicamento representa não só uma solução sanitária, mas um ativo estratégico e econômico. Como observamos há anos nos corredores das políticas públicas, o capital industrial e o capital farmacêutico alternam-se e se articulam na governança global: a emergência permanente torna-se assim um dos alicerces do atual projeto neoliberal.
Não se trata de negar a existência de crises sanitárias ou de minimizar riscos reais. A questão crítica, que cabe à imprensa independente e à cidadania colocar sobre a mesa, é o uso político e econômico que se faz dessas crises. O chamado ordem tecnocapitalista se fortalece quando consegue transformar a exceção em norma: governar com a emergência é uma técnica de poder que remodela vidas, instituições e direitos com o peso da caneta e da narrativa.
Para que essa ars regendi funcione plenamente, é preciso amplificar o medo. Parafraseando Spinoza, a paixão triste da medo torna as pessoas mais dóceis, menos críticas e mais propensas a aceitar medidas que, apresentadas como necessárias para a salvação coletiva, acabam por consolidar estruturas de controle e lucro. A construção de direitos corre o risco de ser substituída por uma arquitetura do medo: medidas emergenciais convertidas em rotinas administrativas, vigilância desenfreada e influência privada sobre decisões públicas.
Do ponto de vista prático, o que está em jogo não é apenas a ciência: é a governança da saúde pública, o acesso equitativo a vacinas e tratamentos, e a transparência sobre contratos públicos com empresas farmacêuticas. Imigrantes, ítalo-descendentes e cidadãos em situação de vulnerabilidade são os mais expostos quando a resposta estatal privilegia parcerias opacas em vez de reforçar os alicerces do sistema público de saúde.
Há, portanto, duas frentes que merecem atenção cidadã: a sanitária — que exige vigilância, testes e respostas proporcionais ao risco — e a política — que exige controle, debate público e limite ao poder privado sobre bens comuns. A imprensa tem papel de ponte entre as decisões de Roma e a vida real das pessoas, derrubando barreiras burocráticas e exigindo prestação de contas sempre que o “sagrado” da vacina for tratado como mercadoria intocável.
Em conclusão: não devemos fechar os olhos ao perigo epidemiológico, mas também não podemos permitir que a emergência seja usada como ferramenta para remodelar, sem escrutínio, os alicerces da lei e da política pública. Vigilância, transparência e proteção dos direitos coletivos são os pilares que impedem que um novo Leviatão tecnossanitário se erga sobre nossos ombros.
Giuseppe Borgo — Espresso Italia