Mattarella leva 2 de junho para a praça do Quirinale: 'A República é a sociedade civil', diz Zamagni
Mattarella celebra 2 de junho no Quirinale aberto ao público; Zamagni destaca: a República é fundada pela sociedade civil, não pelo Estado.
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Mattarella leva 2 de junho para a praça do Quirinale: 'A República é a sociedade civil', diz Zamagni
Em uma decisão simbólica que marca os alicerces da lei e a relação entre Estado e cidadãos, o Presidente Sergio Mattarella optou por celebrar os 2 de junho — aniversário da República italiana — em um espaço aberto ao público, fora dos salões do Quirinale. Para o economista e ex-presidente da Agência para o Terceiro Setor, Stefano Zamagni, essa escolha reforça uma mensagem clara: a Repubblica não deve ser confundida com o Estado.
Zamagni, que já presidiu a Pontifícia Academia das Ciências Sociais e dirigiu a Agência para o Terceiro Setor, disse em entrevista que a iniciativa do Chefe de Estado é uma svolta alinhada ao que o país tem vivido nos últimos meses. "Festeggiare gli 80 anni della Repubblica italiana non all'interno del Quirinale ma in un luogo aperto alla società civile è una svolta che Mattarella, sull'onda di ciò che stiamo vivendo … ha voluto imprimere", afirmou, numa leitura que traduzimos para o debate público: celebrar a festa da República na praça é uma forma de afirmar que a coisa pública pertence a todos.
O cerne da declaração de Zamagni é político e jurídico: "La Repubblica (da res-pubblica, cioè cosa pubblica) non è lo Stato". Em termos práticos, isso significa enfatizar que a fundação do poder soberano vem da sociedade organizada — uma visão que o ex-presidente do Terceiro Setor vincula à tradição que remonta a Tomás de Aquino, em oposição a correntes hobbesianas e hegelianas que enxergam o Estado como origem da sociedade.
Segundo Zamagni, a Constituição italiana privilegia a noção de Repúbblica frente à de Estado, e por isso a decisão de Mattarella também tem um conteúdo pedagógico: lembrar que são os cidadãos e a sociedade civil que dão força, legitimidade e autoridade ao aparelho estatal. "Se lo stato non è inverato dalla società civile diventa uno stato autoritario", avisou ele.
O ex-dirigente descreve a sociedade civil como um "cane da guardia": uma instituição vigilante que late quando o Estado ultrapassa limites e precisa ser reconduzido ao seu recinto. É essa imagem — de uma ponte entre cidadãos e instituições — que orienta a leitura de quem vê no gesto de Mattarella um esforço para reconstruir a participação pública.
Zamagni também criticou a recente atitude de partes da sociedade que, segundo ele, deixaram de exercer o papel de guia e passaram a seguir mecanicamente os aparatos estatais. "La scelta di Mattarella è quindi senz'altro stata condizionata anche dai momenti che stiamo vivendo ... dalla degenerazione avvenuta negli ultimi 7-8 mesi", concluiu. Para o ex-presidente do Terceiro Setor, a renúncia da sociedade civil ao seu papel é uma verdadeira afronta à democracia — uma "blasfêmia" para quem acredita no bem comum.
Como repórter e observador da arquitetura política que conecta Roma ao cotidiano dos cidadãos, vejo nessa mudança um gesto concreto de construção de direitos: levar a celebração para a praça é derrubar barreiras burocráticas e lembrar que a democracia se edifica na presença popular, não apenas no peso da caneta. A iniciativa de Mattarella reabre o debate sobre quem funda o poder e sobre o papel ativo que comunidades, associações e movimentos devem ter na fiscalização e orientação do Estado.
Reportagem de Roberta Lanzara, reescrita por Giuseppe Borgo para Espresso Italia.