Mattarella em Assisi: São Francisco, profeta de paz no 800º aniversário e o repúdio a quem mata em nome de Deus
Mattarella em Assisi celebra os 800 anos de São Francisco como profeta de paz e condena matar em nome de Deus. Legado, diálogo e cidadania.
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Mattarella em Assisi: São Francisco, profeta de paz no 800º aniversário e o repúdio a quem mata em nome de Deus
Em Assisi, no dia em que a Itália celebra o seu padroeiro, o Presidente da República, Mattarella, participou da cerimônia pela Festa Nazionale de San Francesco, marcando os 800 anos da morte de São Francisco. Na celebração, o chefe de Estado definiu o santo como “profeta de paz e de amor” e reafirmou que “matar em nome de Deus é a culpa mais grave”.
Recordando também Santa Catarina de Siena, padroeira ao lado de São Francisco, Mattarella destacou que a distância temporal não diminuiu o alcance do legado franciscano: sua influência ultrapassa fronteiras e confessa um papel central não apenas na tradição cristã, mas na formação cultural e social da Itália. O Presidente assinalou como a sua figura, humilde e ao mesmo tempo vigorosa, provocou conversões, escolhas de vida e se tornou fonte de inspiração para artistas, poetas e comunidades, com forte apelo entre os jovens.
O discurso sublinhou a dimensão popular e prática do impulso franciscano: a opção pelo volgare para pregar, a composição do Cantico delle Creature — considerada entre as primeiras expressões poéticas em língua vernácula — e a representação da Natividade em Greccio são marcos que aproximaram a fé da vida quotidiana e ajudaram a formar a arquitetura das manifestações religiosas e culturais medievais.
Mattarella ressaltou que as comunidades franciscanas retiraram a vida religiosa da solenidade dos mosteiros e a inseriram no tecido urbano, criando uma ponte entre espiritualidade e sociedade, e deixando alicerces para novas formas de solidariedade e critérios renovados de convivência. Nesse sentido, São Francisco foi apresentado como precursor dos chamados “santos sociais”, que colocaram a proximidade aos últimos no centro da ação pública.
Ao evocar um episódio histórico emblemático, o Presidente lembrou a viagem de 1219, durante a Quinta Cruzada, quando Francisco atravessou linhas de guerra para encontrar o sultão al-Malik al-Kamil no Egito. A missão, movida pelo desejo de conversão, não obteve esse desfecho; contudo, o pequeno frade impressionou o sultão ao falar de paz e fraternidade. Para Mattarella, esse gesto é uma lição contemporânea: reconhecer a humanidade do outro e estabelecer diálogo é uma construção civil útil para derrubar barreiras burocráticas e políticas.
O Presidente também deixou uma advertência direta sobre os usos religiosos que legitimam a violência: “Matar em nome de Deus é a culpa mais grave”, disse, apontando o peso da caneta e das decisões políticas na proteção da paz e da cidadania. Em tom que combina crítica e propósito construtivo, Mattarella pediu coerência entre lembrança litúrgica e compromisso público, convidando instituições e cidadãos a traduzirem em atos os ensinamentos franciscanos.
Como correspondente atento à intersecção entre decisões de Roma e a vida concreta das pessoas, ressalto que a mensagem ecoa para além das celebrações: em tempos de migrações, tensões geopolíticas e radicalismos, a lição de São Francisco funciona como uma ponte entre nações e comunidades. A tarefa é transformar esse legado em políticas e práticas que reforcem os direitos, a integração e a proteção dos mais vulneráveis — os alicerces de uma sociedade resiliente e solidária.

