De onde vem a violência na Itália? As raízes nas ideologias da esquerda revolucionária
Análise sobre as raízes históricas da violência na Itália: da 'Resistência tradida' aos centros sociais e aos protestos NO TAV.
RESUMO ✦
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De onde vem a violência na Itália? As raízes nas ideologias da esquerda revolucionária
Por Giuseppe Borgo – Espresso Italia
Para entender a recorrente escalada de violência que, de tempos em tempos, sacode cidades e instituições italianas, é preciso reconstruir a sua origem histórica. Sem conhecer as raízes, qualquer explicação ficará ao nível da superfície e não servirá para erguer os alicerces necessários à prevenção.
Nos anos 70, espalhou-se nas escolas e universidades italianas a narrativa da Resistência “tradida”: a ideia de que o movimento antifascista, em vez de conduzir a uma renovação democrática, deveria ter impulsionado uma Revolução. Esta visão, alimentada por setores radicais, transformou-se em um potente motor de mobilização para jovens que buscavam uma alternativa total à sociedade burguesa. Foi assim que a violência quotidiana — nas salas de aula, nas fábricas, nas ruas — deixou de ser apenas protesto e passou a ser norma de militância contra quem pensava diferente e contra as instituições.
Essa espiral desembocou em episódios de terrorismo e em confrontos que exigiram a reação do Estado e de amplos setores da sociedade, incluindo o próprio PCI. Ao mesmo tempo, outra estratégia foi adotada: a chamada “revolução antropológica”, uma aposta na transformação cultural e moral como via para alterar o tecido social. Essa estratégia não extinguiu a violência; apenas a deslocou e, em muitos casos, a tornou menos explícita, corroendo hábitos e valores que até então seguravam a convivência civil.
Permanece, porém, uma geografia de conflito: as chamadas “zonas” onde a transgressão é reivindicada. Os centros sociais, nascidos como áreas de contestação e “zonas libertadas” contra a normalidade dominante, exemplificam esse status. Nesses espaços, o desrespeito a códigos básicos de convivência tornou-se parte da identidade política, e a memória de confrontos passados é cuidadosamente preservada e celebrada.
A cada ano, episódios como a revolta de Gênova (2001) voltam ao calendário político: aquela mobilização, que há 25 anos mergulhou a cidade em confronto, feriu centenas de agentes, destruiu bens e gerou a morte de Carlo Giuliani, foi convertida em rito de passagem para novas gerações de ativistas. O que era, em parte, uma contestação, é por vezes transformado em tributo que facilita a repetição de atos violentos. Da mesma lógica também emergem os protestos contra obras como a linha de alta velocidade Torino-Lione (NO TAV), onde militância e confronto se alimentam mutuamente.
Mais do que episódios isolados, trata-se de uma arquitetura da ação: uma construção política e cultural que produz sujeitos e espaços predispostos à ruptura. Parte dessa construção é instrumentalizada por correntes políticas progressistas que, em determinados momentos, legitimam ou instrumentalizam a mobilização, cobrindo-a com um manto de causa pública.
Como repórter e observador, minha preocupação é traduzir estes fenômenos para quem vive na ponta dessa ponte entre Estado e sociedade. Não se trata de justificar punição indiscriminada, mas de compreender os mecanismos — ideológicos, sociais e organizacionais — que permitem que pequenas bolhas de violência voltem a inflamar a praça pública. Só assim será possível projetar políticas públicas e respostas institucionais que parem de apenas reagir e comecem a construir, tijolo por tijolo, mecanismos de integração e prevenção.
Referências recentes, como o texto de Salvatore Calasso na revista Cristianità (n. 437/2026), ajudam a mapear essas continuidades e a lembrar que a memória social funciona como molde: celebrações e rituais podem alimentar novos ciclos de confronto. A tarefa, portanto, é dupla: proteger a liberdade de expressão e manifestação e, ao mesmo tempo, reparar os alicerces do convívio civil para que a violência não seja cultivada como legado.
Essa é a ponte que devemos reconstruir: uma arquitetura legal e cívica capaz de conter as correntes políticas que transformam a dissidência em violência organizada. Sem esse trabalho, continuaremos a ver as mesmas cenas se repetirem, com custo humano e social cada vez maior.