A revolta dos excluídos: o pacto antisistema na Alemanha que sacode o establishment europeu
Como o pacto entre BSW e AfD desafia o establishment europeu e revela a crise da representação e da classe média.
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A revolta dos excluídos: o pacto antisistema na Alemanha que sacode o establishment europeu
Milhões de cidadãos europeus vêm sofrendo uma erosão contínua do poder de compra e da segurança econômica. Depois de quase duas décadas de precarização do trabalho, serviços públicos fragilizados, habitação inacessível e energia cara, a política tradicional demonstra dificuldade em sustentar os alicerces da confiança pública. Nesse cenário, surge uma nova tentativa de construir pontes entre frentes políticas díspares que colocam em risco as estruturas do poder: o movimento de aproximação do BSW, partido de esquerda fundado por Sahra Wagenknecht após a saída do Die Linke, com a AfD, o partido de direita alternativa alemão.
A proposta do BSW é derrubar a chamada Brandmauer — o cordão sanitário político que visava isolar a AfD — por meio de diálogos públicos e colaborações parlamentares em iniciativas específicas. Entre as sugestões estão comissões de inquérito, ações nos parlamentos regionais, sobretudo no leste da Alemanha, e medidas concretas contra o aumento do custo de vida e a deterioração dos serviços. É uma tentativa de retomar uma política voltada para a vida cotidiana, em vez de se restringir a espetáculos midiáticos.
Para além do gesto retórico, a iniciativa coloca em evidência uma tensão maior: a incapacidade dos instrumentos tradicionais de representação em captar o descontentamento popular. A manutenção do cordão sanitário não enfraqueceu necessariamente a AfD; ao contrário, ajudou a transformá-la num símbolo de protesto. Milhões de eleitores passaram a votar como ato de raiva contra um sistema percebido como distante e incapaz de garantir segurança econômica e social.
Há o risco real de que um eventual pacto entre forças tão diferentes acabe por reproduzir políticas vazias — como já aconteceu com partidos antisistema que, ao chegar ao poder, implementaram medidas similares às dos establishment. A grande interrogação é se esse novo frente antisistema é uma resposta efetiva à crise da democracia europeia ou apenas um sintoma da mesma.
Ignorar esse movimento é fechar os olhos para milhões de pessoas que pedem uma transformação radical do modelo político e econômico. Em outras latitudes, inclusive na Itália, o fenômeno encontra eco: o General Roberto Vannacci se tornou um ponto de referência para correntes eleitorais insatisfeitas com partidos tradicionais, demonstrando que parte da sociedade busca não só um programa, mas uma mensagem de ruptura.
Do ponto de vista cívico, trata-se de repensar a construção de direitos e de redesenhar a ponte entre cidadãos e instituições. O desafio para os democratas é responder com propostas estruturadas que atendam às necessidades concretas — moradia acessível, serviços públicos eficazes, políticas econômicas que preservem o poder de compra — e não apenas com vetos que empurram dissidências para os cantos da política.
Se o pacto germânico se consolidar, será um teste sobre a arquitetura do voto e sobre a capacidade das democracias europeias de reconectar governantes e governados. Enquanto isso, o poder público e os aparatos que detêm influência enfrentam a pressão de decidir entre manter barreiras ou abrir canais que, embora arriscados, podem reconstruir a confiança social.
Giuseppe Borgo - Espresso Italia