Pina Picierno anuncia saída do PD em Bruxelas e negocia assento no Parlamento Europeu com o Renew
Pina Picierno anuncia saída do PD em Bruxelas e negocia permanência como vice-presidente no Parlamento Europeu com apoio do Renew.
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Pina Picierno anuncia saída do PD em Bruxelas e negocia assento no Parlamento Europeu com o Renew
Em entrevista concedida em Bruxelas ao diretor Claudio Cerasa, regada a hummus e suvlaki, a vice-presidente do Parlamento Europeu, Pina Picierno, oficializou o seu esperado adeus ao PD. O anúncio reacende velhas polêmicas: votos contrários às orientações do partido, relações definidas por colegas como “inciuci” com eurodeputados do PPE e do ECR, e encontros com think tanks israelenses de orientação conservadora.
Picierno afirma renovar sua identidade política sob o rótulo de “riformismo coerente e popolare”, uma plataforma que pretende sustentar em temas que, nas suas palavras, exigem clareza: combater o “fascismo putiniano”, enfrentar as “ambigüidades” sobre Kiev e atacar o antissemitismo local. A vice-presidente disse ainda que pretende construir algo novo, a partir da mobilização popular, num cenário político que, segundo ela, já não abriga a antiga “casa dos reformistas”.
A saída não é apenas retórica: trata-se de uma jogada com consequencias institucionais. Dentro da delegação do PD em Estrasburgo, circula a versão de que Pina Picierno sabia, desde o início, que cumpriria apenas meio mandato como vice-presidente — um arranjo que, em teoria, deixaria a cadeira para outro nome do partido, possivelmente Nicola Zingaretti. Mas a eurodeputada agiu por antecipação.
O grupo Renew, conforme anunciado por Sandro Gozi (em declaração feita por si mesmo, não em nome do Italia Viva), colocou-se pronto para acolhê-la e garantir a permanência na vice-presidência — medida que provoca mal-estar no PD europeu. Para os socialistas, a transição representa não só a perda de um cargo, mas também da credibilidade que os dems demonstraram ao indicar e eleger Picierno para a vice-presidência.
Na prática, a saída expõe tensões internas e a erosão de pontes partidárias: relações geladas com figuras como Matteo Renzi e Elly Schlein, ambições abortadas (ela cogitava um desafio a Schlein em um congresso que não se realizou) e a percepção de que a política de coalizão italiana está em processo de nova arquitetura — uma obra em que cada movimento altera alicerces e alinhamentos.
Há ainda o lado pessoal e de segurança: Picierno está sob escolta há cerca de um ano, por ameaças atribuídas a grupos filorussos e a extremistas. Esse contexto reforça o sentido público de sua virada política — uma tentativa de transformar pressão e risco em legitimidade e visibilidade.
Em tom direto, a vice-presidente justificou a ruptura como uma necessidade de clareza e ação: “não se pode ser ambíguo com o fascismo putiniano e os extremismos”, disse, convocando a construção de uma alternativa capaz de “entusiasmar” eleitores. O futuro imediato passa por formalizar o acolhimento no Renew e manter o posto no Parlamento, enquanto as consequências para o PD — perda de prestígio entre os socialistas europeus e aperto interno — começam a se desenhar.
O episódio é mais um tijolo na arquitetura da política italiana na Europa: demonstra como decisões individuais no plenário podem reconfigurar alianças, abrir fraturas e forçar o partido a reparar danos de imagem em nível continental. Picierno, por sua vez, busca transformar o peso da caneta e a visibilidade do cargo em combustível para a sua nova narrativa política — uma ponte entre a defesa de valores europeus e a necessidade de formas renovadas de engajamento político.