Por que votarei "NO" no referendo sobre a Justiça: Defender o Estado de Direito contra a captura oligárquica
Por que votar NÃO no referendo da Justiça: proteger a independência dos magistrados e o Estado de Direito contra concentração de poder.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Por que votarei "NO" no referendo sobre a Justiça: Defender o Estado de Direito contra a captura oligárquica
Tinha me prometido manter distância deste debate — raramente comento política interna a não ser pelos seus reflexos externos —, mas a matéria cruza-se com questões centrais da vida coletiva: a militarização da Europa, o declínio das liberdades constitucionais, a erosão dos valores iluministas e a expansão da sociedade da vigilância. Por isso explico, de forma direta e com o compromisso de um correspondente que quer construir uma ponte entre o poder e os cidadãos, por que voto Não no referendo da Justiça.
Aponto três razões essenciais.
1) A alteração constitucional por maioria parlamentar fragiliza os alicerces
Não se deve mudar o texto constitucional de sete artigos por uma simples maioria parlamentar. Essa via revela um claro intuito de concentração de poder: não se reformam os alicerces da lei com atalhos procedimentais. A Constituição é a matriz que garante equilibradamente os poderes; submeter mudanças tão profundas a um procedimento político simples é dar ao Executivo a chave para redesenhar a arquitetura do Estado de Direito.
2) A independência dos magistrados e o papel do Ministério Público
A elevação à categoria constitucional do status dos procuradores e a unidade da carreira dos magistrados são pilares da independência judicial. Sou filho de magistrado — Aldo Basile — e vi, na prática, como a autonomia do Ministério Público protege a busca pela verdade judicial. O procurador tem um dever público de investigar e perseguir a verdade; o advogado de defesa é um agente privado cuja missão é representar o cliente. Equiparar ou subordinar o Ministério Público ao Executivo significa transformar uma garantia do acusado em instrumento de poder político. É como trocar os alicerces por colunas de vidro: frágeis diante das pressões.
3) Não se conserta um problema de captura com mais captura
A opinião pública sofreu uma corrosão da confiança — em parte estimulada por discursos políticos que alimentam a acrimônia contra o sistema judiciário. Há, sim, casos de corrupção e de comportamentos parciais que merecem correção. Mas a solução não é legalizar a submissão: criar uma categoria de procuradores mais dependentes do Executivo apenas legitima compromissos já criticáveis. Seria como, diante de padres criminosos, tentar salvar a Igreja transformando o erro em norma.
Há ainda o risco de que a reforma, se aprovada, fortaleça oligarquias e interesses concentrados em detrimento dos direitos civis e da igualdade perante a lei. As mudanças não são neutras: redistribuem poder, mexem nos canais de responsabilização e transformam o peso da caneta em instrumento político.
Por fim, coloco uma pergunta que não é retórica: se o Não vencer, teremos uma vitória sólida em defesa da legalidade ou apenas um alívio passageiro? A vitória precisa ser seguida por políticas que reconstruam a confiança e os controles, sem replicar as mesmas falhas com novas regras.
Vote com atenção: a construção de direitos exige cuidado técnico e civicidade. Não se derrubam barreiras burocráticas substituindo-as por capitais de poder. O meu No é um voto em defesa do Estado de Direito, da independência dos magistrados e contra a potencial ampliação das oligarquias.


