Stabilicum apaga os colégios uninominais: quem perde o vínculo entre eleitor e eleito?

Stabilicum elimina os colégios uninominais e reforça listas fechadas; quem perde o vínculo entre eleitor e eleito e por quê?

Stabilicum apaga os colégios uninominais: quem perde o vínculo entre eleitor e eleito?

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Stabilicum apaga os colégios uninominais: quem perde o vínculo entre eleitor e eleito?

Quando a lei eleitoral vira assunto em TV, reina o pânico nas redações: debate técnico demais, risco de queda no share. Mas estamos falando dos alicerces da lei, das regras que moldam quem nos governa. O centro-direita liderado por Giorgia Meloni propõe mais uma alteração — como já virou hábito — no último ano de legislatura: o projeto apelidado de Stabilicum.

Os defensores da mudança respondem que já se fez assim no passado. É uma justificativa frágil: repetir um erro porque foi repetido antes não o torna menos questionável. Depois da derrota em consultas e referendos anteriores, partidos e secretarias já fazem contas com projeções e sondagens. Mas há diferenças cruciais entre tipos de votação: o comparecimento a um referendo não é igual ao voto político e as mobilizações locais nas eleições regionais dizem muito sobre o estado real da representação.

O cerne da proposta do centro-direita é este: substituir o atual sistema misto — conhecido como Rosatellum — por um retorno ao proporcional puro, com listas fechadas e um mecanismo de prêmio de governabilidade. Na prática, o Stabilicum prevê que uma coalizão ou lista que atingir 40% dos votos leve uma vantagem decisiva; se ninguém alcançar 40%, haverá um ballottaggio (segundo turno entre as duas forças mais votadas), desde que ao menos uma alcance 35%.

O argumento público é nobre na retórica: evitar o temido "inciucio de palazzo", isto é, acordos pós-eleitorais que tiram a governabilidade do controle dos eleitores. Em 2022, com o Rosatellum e um quadro partidário fragmentado, a coalizão de centro-direita (Fratelli d'Italia, Lega, Forza Italia e Noi Moderati) obteve uma vitória ampla e construiu a maioria que ainda sustenta o governo de Meloni — agora projetada para ser possivelmente a mais duradoura da república. Essa vitória é invocada como prova de que o sistema misto funcionou. Mas o que mudou para justificar a volta ao proporcional?

Uma peça central desta proposta é a eliminação dos colégios uninominais, os distritos que tornam o vínculo entre eleitor e eleito direto e palpável. Ninguém explicou claramente em que os colégios teriam "falhado". São, por sua natureza, uma ponte entre a representação nacional e as demandas locais: obrigam o candidato a cruzar o território, atender a eleitorado específico, responder por promessas no bairro, na cidade. Tirar os colégios uninominais é reforçar as estruturas de poder dos partidos, que por meio das listas fechadas decidem quem entra no Parlamento — o que aumenta o peso da caneta dos líderes e reduz o peso do voto.

Do ponto de vista da cidadania, esta é uma obra que mexe nos alicerces: desmontar o elo direto entre representante e representado muda a arquitetura da responsabilidade política. Para migrantes, ítalo-descendentes e eleitores das periferias, a retirada de distritos uninominais pode significar menos acesso a interlocutores dedicados e maior distância das decisões que impactam sua vida cotidiana.

Os proponentes dizem que o Stabilicum previne a ingovernabilidade e o convívio entre adversários no poder. Os críticos replicam que a solução proposta resolve sintomas com uma cirurgia que enfraquece a democracia representativa: concentração de escolha nas cúpulas partidárias, redução da rota de prestação de contas e menor pressão cidadã sobre mandatos específicos.

Como repórter que busca ser ponte entre nações e sociedade, exijo — e recomendo que a sociedade exija — um debate transparente, com dados sobre por que os colégios teriam fracassado, simulações do impacto sobre representação local e garantias contra a centralização do poder. A proposta não é apenas técnica: é a revisão da arquitetura do voto. Antes de derrubar muros, que nos mostrem onde estão as rachaduras.

Em suma: o projeto de lei altera a morfologia do sistema político. Não se trata só de prêmio ou de maioria, mas de quem mantém a ponte entre eleitor e eleito. Esta é a questão que o centro-direita deve responder com fatos e não com slogans: por que remover os colégios uninominais e em que medida isso fortalece, de fato, a governabilidade sem sacrificar a responsabilidade democrática?