Joe Lovano assume direção artística do Bergamo Jazz e leva jovens talentos ao palco do Donizetti
Joe Lovano dirige Bergamo Jazz e traz jovens talentos ao Donizetti para celebrar os 100 anos de Miles Davis e John Coltrane.
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Joe Lovano assume direção artística do Bergamo Jazz e leva jovens talentos ao palco do Donizetti
Por Giulliano Martini — Em videocollegamento de Nova Iorque, com boné verde-menta e óculos redondos, o saxofonista e diretor artístico do festival Bergamo Jazz, Joe Lovano, fez um diagnóstico seco e preciso do programa da próxima edição. A entrevista foi conduzida em inglês — "me desculpe, não falo italiano apesar de minhas raízes sicilianas", disse Lovano — e concentrou-se no projeto curatoral que culmina no Teatro Donizetti com um concerto em homenagem aos cem anos de Miles Davis e John Coltrane.
Lovano traçou, com objetividade, a linha que liga a herança desses gigantes às gerações atuais: "Cada época produz líderes que se tornam referência. De Louis Armstrong a Charlie Parker, de Dizzy Gillespie a Coltrane e Davis — todos deram contribuições fundamentais ao desenvolvimento do jazz". O músico recordou a influência direta sobre sua formação: o pai, Tony Lovano, mantinha uma vasta coleção de discos e introduziu-lhe cedo a discografia de Miles Davis e John Coltrane.
Em termos biográficos e de proximidade ao palco histórico do jazz, Lovano detalhou que não chegou a ouvir Coltrane ao vivo — tinha 14 anos quando o saxofonista faleceu, em 1967 —, mas assistiu a concertos de Miles Davis desde 1971. Além disso, fez cruzamento de fontes e listou colaborações significativas com músicos que tocaram com Coltrane, como Elvin Jones, McCoy Tyner e Hank Jones, estabelecendo a continuidade geracional que fundamenta seu trabalho curatoral.
Sobre a programação de Bergamo Jazz, Lovano indicou tanto apostas de retorno quanto renovação: o veterano Steve Coleman figura entre os nomes confirmados, ao lado de uma presença crescente de mulheres instrumentistas. "Tenho muito prazer em trazer para o palco jovens músicos que deixam sinal para as próximas gerações", afirmou. Entre os destaques, a saxofonista Melissa Aldana — ex-aluna de Lovano —, descrita por ele como detentora de um "som maravilhoso e abordagem muito pessoal", e a saxofonista Lakecia Benjamin, notada pelo estilo cativante e por ampla repercussão na cena atual.
O diretor artístico reafirmou o caráter propositivo do festival: promover tanto a memória do jazz quanto a renovação através de vozes novas e representativas. "Estamos direcionados a um sold out", observou Lovano, sem exageros, sustentando a afirmação na resposta do público às programações anunciadas. A estratégia, segundo ele, combina nomes históricos e projetos inéditos, buscando equilíbrio entre atração imediata e construção de legado.
Do ponto de vista prático, o núcleo do festival funcionará em torno do Teatro Donizetti e de espaços satélites em Bergamo, com apresentações que prometem discutir e celebrar, em palco, os 100 anos de figuras que moldaram a modernidade do jazz. A curadoria de Lovano aparece, na avaliação inicial, clara e orientada por critérios musicais e pedagógicos: promoção de talentos jovens, presença feminina ampliada e reverência às referências históricas sem nostalgia.
Apuração in loco e cruzamento de fontes indicam uma edição pensada para dialogar com públicos diversos — do aficionado histórico ao ouvinte que busca novas sonoridades — mantendo o rigor técnico e a clareza de propósitos que marcam a gestão artística de Joe Lovano.


