Melissa Aldana no Bergamo Jazz: o saxofone que a salvou
Melissa Aldana retorna ao Bergamo Jazz: o saxofone que a salvou e sua trajetória até Blue Note, Rubalcaba e Joe Lovano.
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Melissa Aldana no Bergamo Jazz: o saxofone que a salvou
Por Giulliano Martini. Em apuração rigorosa e cruzamento de fontes: quando, pela primeira vez, a chilena Melissa Aldana subiu ao palco do Bergamo Jazz, tinha 29 anos e ainda era quase desconhecida na Itália. O convite partiu do então diretor artístico Dave Douglas. Naquela ocasião, a trajetória internacional já trazia um marco decisivo: a vitória na competição internacional Thelonious Monk, um feito inédito para uma saxofonista.
Na quinta-feira 19 de março, Melissa Aldana, radicada em Brooklyn, retorna ao festival para a noite inaugural do Teatro Sociale, agora a pedido de Joe Lovano. Em dez anos, a musicista acumulou marcos formais e artísticos: contratos com selo Blue Note, turnês globais, e parcerias com nomes de peso do jazz como Gonzalo Rubalcaba e Joshua Redman. Fontes diretas e o histórico discográfico confirmam uma progressão técnica e de reconhecimento que não se baseia em narrativa comemorativa, mas em progresso contínuo.
No plano artístico, o álbum que antecede o mais recente, Echoes Of The Inner Prophet, explicita sua busca interior. Perguntada sobre quem é esse "profeta interno", Melissa Aldana aponta para a própria disciplina de investigação musical: a vontade de aperfeiçoamento, o trabalho contra o ego e as camadas que atrapalham a escuta autêntica. A saxofonista descreve a música com termos próximos ao místico: um instrumento que se torna ferramenta de autoconhecimento. Em suas palavras, o saxofone não foi apenas um meio; foi um elemento salvador durante uma infância marcada por dificuldades.
O disco mais recente dedica-se ao repertório das Filin-Songs, canções sentimentais cubanas popularizadas entre as décadas de 1940 e 1950. A mudança de foco não foi estanque: nasceu da busca por um timbre próprio. Ao considerar as grandes ballads do songbook americano como ponto de partida, foi o pianista Gonzalo Rubalcaba quem sugeriu explorar as melodias "sentimentais" de sua terra natal. A interpretação exigiu um processo longo de interiorização e aprofundamento espiritual, segundo depoimento verificado.
Como artista migrante vivendo nos Estados Unidos, Melissa Aldana observa o mundo a partir de uma perspectiva profissional e pessoal. Ela afirma valorizar o trabalho onde tem casa, a partilha da história com públicos e colegas músicos. Diante das notícias perturbadoras que se acumulam semanalmente, sua resposta artística é a criação de espaços de escuta coletiva: estar em uma sala, partilhar uma experiência sonora e reafirmar o papel do jazz como comunidade e resistência simbólica.
O retorno ao Bergamo Jazz simboliza, portanto, tanto um recomeço público quanto a continuação de uma trajetória construída por aperfeiçoamento técnico e por escolhas sonoras firmes. O fato — verificado em documentos de programação do festival e no catálogo discográfico da artista — consolida uma narrativa de mérito construída em disciplina e em colaborações com figuras centrais do jazz contemporâneo.
Em termos práticos: a presença de Melissa Aldana no Teatro Sociale, com curadoria de Joe Lovano, representa um ponto de observação privilegiado para avaliar as transformações do cenário jazzístico internacional e a afirmação do saxofone como veículo de afirmação pessoal e coletiva.


