In parole povere: por que o dialeto não morreu e segue como marca de identidade
Franco Brevini desmonta a profecia de Pasolini e mostra por que o dialeto resiste e se reforça como marca de identidade na era digital.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
In parole povere: por que o dialeto não morreu e segue como marca de identidade
Por Giulliano Martini. O novo livro de Franco Brevini, In parole povere (Bollati Boringhieri), parte de uma negação direta à profecia sociolinguística de Pier Paolo Pasolini. Pasolini havia previsto, nos anos 1970, o fim das parladas locais como sinal do declínio das civilizações que as produziam. A pesquisa e a observação de Brevini mostram o oposto: o dialeto não morreu; transformou-se e reencontrou espaço no cenário cultural e digital.
Em entrevista, o professor associado de Literatura Italiana na Universidade de Bergamo traça o percurso que vai do prognóstico pessimista ao presente em que as variantes locais reaparecem em múltiplos canais. “Nos anos 70 Pasolini anunciou a morte dos dialetos — afirma Brevini —. Isso, em tese, teria correspondido ao fim das culturas que os falavam. Não foi o que aconteceu. Nem ele podia prever o que viria com o advento do web.”
O livro formula perguntas objetivas e responde com base em exemplos contemporâneos: o que são os dialetos; por que sobrevivem apesar do declínio demográfico; por que emoções parecem mais autênticas quando expressas em língua local. Brevini aponta fenômenos visíveis: do bordão "accussì" entoado por Sal Da Vinci no Festival de Sanremo ao sucesso de peças encenadas em fala regional, como o espetáculo Miracolo a Milano atuado em milanês no cartaz do Piccolo Teatro.
O autor faz uma leitura sociolinguística que privilegia o dado empírico. Segundo Brevini, cerca de metade da população italiana ainda recorre a expressões dialetais no cotidiano. O que mudou é o meio: “A Rede criou dinâmicas em que o global interage com o local. Os dialetos explodem nas redes sociais; são pigmentos que dão cor a um idioma cada vez mais empalidecido e banalizado.”
O diagnóstico não é romântico. Trata-se, nas palavras do autor, de uma constatação apoiada em indícios observáveis: canções populares, viralização de expressões, dramaturgia local e o uso do dialecto como uma ferramenta de identidade. “Na música, por exemplo, o caso napolitano é paradigmático — lembra Brevini —. Artistas como Geolier ou o enigmático Liberato mostram que a linguagem local pode ter alcance massivo. O dialeto funciona como uma geolocalização cultural: ancorando o discurso à cidade, ao bairro, ao grupo.”
A escolha da capa — com a figura de Arlecchino — não é casual. Representa um gesto de homenagem à Bergamo, cidade em que Brevini vive e leciona, e às raízes que atravessam gerações. O autor recorda a mãe, que migrou jovem para Milão e conservou expressões como o “pota pota”: pequenos sinais linguísticos que mantêm os vínculos com as origens e introduzem uma dose de veracidade nas falas.
Do ponto de vista jornalístico, trata-se de um livro que exige leitura com método: apuração in loco, cruzamento de fontes e atenção aos dados brutos. A tese de Brevini não é de resistência estática. Mostra, ao contrário, a capacidade de adaptação dos dialetos — sua aptidão para reaparecer em novos territórios, sobretudo digitais — e de assegurar sentidos coletivos em tempos de homogeneização cultural.
Em suma: a previsão de extinção falhou. O dialeto persiste como instrumento de identificação e expressão emocional; o web ampliou seu alcance, e a cultura italiana reencontrou nas variantes locais não um resto anacrônico, mas um recurso vivo para narrar a realidade desde o lugar em que ela acontece.