Presidente de Ceuta exige postura firme da UE contra o Marrocos após afluxo massivo
Presidente de Ceuta pede à UE postura mais dura contra o Marrocos após afluxo de 80 mil migrantes; Comissão não assumiu compromissos imediatos.
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Presidente de Ceuta exige postura firme da UE contra o Marrocos após afluxo massivo
Por Marco Severini — Em um gesto que redesenha, no tabuleiro diplomático, as linhas de fricção entre Rabat e a União Europeia, o presidente diocesano de Ceuta, Juan Jesús Vivas, apelou esta terça-feira por uma abordagem mais rígida da UE face ao Marrocos, acusando-o de conduzir uma política de vexação contra o enclave espanhol. O apelo surge após o dramático afluxo de cerca de 80 mil migrantes que entraram em Ceuta em 30 de julho, episódio que expõe alicerces frágeis da diplomacia migratória no Mediterrâneo ocidental.
Vivas encontrou-se em Bruxelas com três comissários europeus — Andrius Kubilius, Magnus Brunner e Dubravka Šuica — e com vários eurodeputados, solicitando apoio claro para repatriar migrantes em situação irregular e financiar medidas de securança das fronteiras. Segundo o presidente, permanecem na cidade milhares de cidadãos de países terceiros, entre eles numerosos menores não acompanhados, situação que qualifica como uma crise humanitária e de ordem pública. "Ceuta está à beira do colapso", declarou, num tom que alterna a promessa de resistência com a solicitação de socorro institucional.
Ao distanciar-se da linha de cooperação adotada por Madrid com Rabat, Vivas criticou o governo de Pedro Sánchez por uma resposta que considerou inadequada antes, durante e após o incidente de julho — episódio que teve como trágico saldo a morte de mais de 150 pessoas no mar. Ele também questionou a recusa do Executivo espanhol em atribuir a responsabilidade direta ao Marrocos, citando um relatório policial vazado que sugere envolvimento das forças marroquinas na crise.
Madrid, por sua vez, mantém que a causa do afluxo massivo inclui notícias falsas nas redes sociais e a ação de redes de traficantes de pessoas, ao mesmo tempo que continua a caracterizar Rabat como um "parceiro confiável" na gestão de fluxos migratórios — posição que a Comissão Europeia também tem reiterado. Importa salientar que a União Europeia financia o plano de gestão migratória do Marrocos com 160 milhões de euros até 2027, montante que Vivas não pediu explicitamente para ser suspenso, ao contrário do apelo feito pelo partido espanhol Vox.
Durante as conversas em Bruxelas, os três comissários manifestaram apoio político a Ceuta, mas a Comissão não assumiu compromissos concretos de financiamento ou sanções. Em contrapartida, Bruxelas anunciou o envio, já esta semana, de uma missão técnica ao enclave com o objetivo de avaliar in loco a situação e calibrar eventuais medidas de assistência.
Como analista — e como quem observa a tectônica de poder na periferia europeia — esta etapa revela um movimento decisivo no tabuleiro: a exigência de Ceuta obriga os atores a recalcularem alianças e a repensarem os mecanismos de cooperação que têm sustentado, até aqui, uma gestão pragmática dos fluxos migratórios. A estabilidade regional depende agora da capacidade de construir soluções que equilibrem respeito às fronteiras, proteção de direitos humanos e coordenação estratégica entre Madrid, Bruxelas e Rabat.

