Conselho da Europa alerta: 1 em cada 7 crianças na Itália vive em pobreza absoluta
Conselho da Europa alerta: 13,8% das crianças na Itália vivem em pobreza absoluta; comissário O’Flaherty pede estratégia nacional e financiamento sustentável.
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Conselho da Europa alerta: 1 em cada 7 crianças na Itália vive em pobreza absoluta
Bruxelas — Em um diagnóstico que exige leitura estratégica e resposta coordenada, o Conselho da Europa lançou um alerta sobre a persistente e crescente pobreza infantil na Itália. No memorandum publicado hoje, o comissário para os direitos humanos, Michael O’Flaherty, apresenta os resultados de uma visita realizada em janeiro, concluindo que as crianças são atualmente “a faixa etária mais afetada pela pobreza” no país. Segundo o documento, cerca de 13,8% dos menores — aproximadamente um em cada sete — vive em condição de pobreza absoluta.
O retrato traçado por O’Flaherty ressalta padrões territoriais e sociais bem delineados: o problema incide de forma mais intensa no Mezzogiorno, em áreas periféricas e em bairros urbanos mais desfavorecidos, atingindo com particular severidade famílias monoparentais e famílias numerosas. Essa distribuição evidencia um tabuleiro de poder e fragilidade social onde movimentos macroeconômicos — salários inadequados e a escalada do custo de vida — convergem para ampliar a pressão sobre os bolsos das famílias.
O comissário sublinha que as iniciativas em curso no âmbito nacional representam avanços, mas permanecem insuficientes para um redesenho estrutural capaz de interromper a tendência. Entre os instrumentos citados constam o Assegno unico e universale (AUU), calibrado segundo o ISEE, e o Assegno di inclusione (ADI), destinado a núcleos vulneráveis e criado em substituição ao Reddito di cittadinanza. Complementam o quadro o Piano nazionale inclusione e lotta alla povertà e o reforço dos Livelli essenziali delle prestazioni (LEP), com investimentos anunciados para ampliar a presença de assistentes sociais, psicólogos e educadores no território.
No entanto, para O’Flaherty essas medidas precisam ser integradas em reformas de maior alcance: recomenda uma estratégia nacional única contra a pobreza infantil fundada nos direitos humanos, com financiamento estável e mecanismos que reduzam as desigualdades territoriais. A tática proposta envolve definir e financiar os LEP de forma articulada, garantir que as prestações cheguem às famílias sem barreiras de residência ou cidadania e eliminar obstáculos tecnológicos e burocráticos que excluem beneficiários elegíveis.
Na perspectiva do comissário, a pobreza infantil não é um dado isolado; ela corrói alicerces essenciais da vida das crianças: acesso à saúde, à educação, à nutrição adequada, a uma habitação digna e a redes sociais que permitam mobilidade e bem-estar. A avaliação exige, por isso, uma resposta multidimensional, sustentada por financiamento contínuo e por instrumentos que alcancem as populações mais marginalizadas.
Como analista da arquitetura geopolítica, observo que este parecer atua como uma chamada de atenção para a tectônica de poder em nível doméstico: políticas sociais fragmentadas funcionam como peças mal alinhadas de um mesmo tabuleiro. A recomendação por uma governação coerente e de longo prazo não é apenas humanitária; é estratégica. Investir de modo sistemático na infância é, em termos práticos, um movimento decisivo — uma jogada que preserva capital humano e estabilidade social, mitigando riscos futuros para o tecido político e econômico do país.
O desafio italiano, portanto, é converter medidas pontuais em uma política integrada, com metas claras, financiamento previsível e mecanismos de monitoramento que garantam que nenhum menor seja deixado fora das redes de proteção por motivos administrativos ou territoriais. Sem isso, os números do Conselho da Europa continuarão a apontar fragilidades que reverberam além das estatísticas, afetando a própria coesão do Estado.