Corte da UE rejeita recurso húngaro e mantém utilização de ativos russos para ajuda à Ucrânia
Tribunal da UE rejeita recurso da Hungria e mantém uso de ativos russos congelados para financiar ajuda à Ucrânia via Instrumento Europeu para a Paz.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Corte da UE rejeita recurso húngaro e mantém utilização de ativos russos para ajuda à Ucrânia
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha um trecho sensível do tabuleiro europeu, o Tribunal da União Europeia rejeitou o recurso apresentado pelo anterior governo da Hungria que visava bloquear o encaminhamento de milhares de milhões de euros à Ucrânia, financiados a partir de ativos russos congelados.
O processo havia sido instaurado pelo executivo liderado por Viktor Orbán, que no ano passado recorreu ao tribunal para anular uma decisão do Conselho Europeu. A medida do Conselho destinava os rendimentos gerados por ativos da banca central russa — apreendidos e congelados após a agressão à Ucrânia — ao Instrumento Europeu para a Paz (EPF), o principal mecanismo comunitário de apoio militar e de segurança.
No cerne do recurso, a Hungria sustentava que o uso desses rendimentos pelo EPF teria violado o direito da União, por ter sido adotado sem atender ao seu veto, alegando que não seria um “Estado-membro contribuidor” no sentido requerido. Argumentou ainda violação dos princípios de igualdade entre Estados-membros e do funcionamento democrático da União, por ter sido, segundo seu entendimento, indevidamente privado do direito de voto.
Em comunicado, o Tribunal afirmou que o pedido foi rejeitado por não se enquadrar nas competências do sistema jurisdicional da UE. Os juízes consideraram que a decisão contestada integra uma escolha estratégica no âmbito da política externa e de segurança comum — domínio que permanece, em larga medida, fora do escrutínio jurisdicional.
Na prática, trata-se de um princípio estrutural: determinadas decisões que constituem um movimento decisivo no tabuleiro diplomático são políticas externas cuja revisão judicial seria um excesso de intervenção sobre o desenho da política de Estado. Essa delimitação reforça os alicerces frágeis da diplomacia coletiva em tempos de crise, quando o vetor estratégico prevalece sobre litígios formais.
Entre 2022 e 2024, a UE mobilizou aproximadamente 6,1 bilhões de euros via EPF para atender às necessidades militares e de defesa mais urgentes da Ucrânia. Em 2024, foi aprovado o incremento de 5 bilhões de euros ao teto financeiro do mecanismo, por meio da criação do Fundo de Assistência à Ucrânia, elevando o suporte total via EPF para cerca de 11,1 bilhões de euros.
O governo anterior de Orbán mantinha laços estreitos com Moscou e vinha obstruindo, em diversos momentos, iniciativas comunitárias de apoio a Kiev, tensionando o eixo de influência europeu. O cenário, contudo, sofreu mutação: após as eleições legislativas de abril, o novo executivo húngaro reviu profundamente a doutrina de política externa, classificando agora a Rússia como uma ameaça.
Na terça-feira, Budapeste expulsou dez diplomatas russos por atividades que definiu como “inaceitáveis”, ação imediatamente condenada por Moscou. Esta sequência de fatos ilustra a tectônica de poder em curso — um redesenho de fronteiras invisíveis, onde decisões judiciais, movimentos executivos e recalibrações diplomáticas se combinam para definir o próximo mapa estratégico da Europa.
Enquanto a União consolida mecanismos para sustentar a resistência ucraniana, a decisão judicial reafirma que a arbitragem sobre meios e fins em política externa continua sendo, sobretudo, uma competência política e estratégica dos Estados e das suas instituições coletivas.

