De resíduos a tecidos: como a Ecoalf usa pescadores para limpar os mares e produzir moda sustentável

Ecoalf transforma resíduos marinhos em tecidos com pescadores e o projeto Upcycling the Oceans — estratégia sustentável que limpa os mares.

De resíduos a tecidos: como a Ecoalf usa pescadores para limpar os mares e produzir moda sustentável

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

De resíduos a tecidos: como a Ecoalf usa pescadores para limpar os mares e produzir moda sustentável

Por Marco Severini — Em um movimento que combina pragmatismo industrial e visão geopolítica do espaço marítimo, a marca espanhola Ecoalf organiza uma cadeia que transforma lixo recolhido no mar em matéria-prima têxtil. Por trás do projeto, há quase 5 mil pescadores e uma fundação sem fins lucrativos que, diariamente, retiram detritos que ficam presos nas redes e os encaminham para um processo de recuperação e reaproveitamento.

Guia Italia + — O conteúdo continua após a publicidade.

Continuação do Conteúdo ↘

“Hoje o plástico representa cerca de 80% de todo o resíduo que recuperamos. Esta é a nossa realidade cotidiana”, relata o pescador Tony Beltrán, exibindo os fragmentos presos nas redes ao largo de Gandía, ao sul de Valência. Antes da difusão generalizada da reciclagem, diz Beltrán, o trabalho de retirar o lixo já acontecia — a diferença atual está na triagem e na valorização desse material.

Desde 2015, o projeto Upcycling the Oceans, lançado pela Fundação Ecoalf, retirou mais de duas mil toneladas de resíduos marinhos — o equivalente a cerca de cem caminhões carregados de detritos. A iniciativa opera hoje em cerca de oitenta portos e expandiu sua presença para França, Itália, Grécia, Egito e Tailândia. Ainda que relevante, esse resultado permanece distante da escala do problema: a fundação lembra que, a cada minuto, entra nos oceanos o equivalente a um caminhão cheio de plástico.

“Nosso objetivo sempre foi engajar 10.000 pescadores em todo o Mediterrâneo para, juntos, limpar o mar”, explica Andrea Ruzo, diretora da Fundação Ecoalf. Trata-se de um esforço que reorganiza atores locais — os pescadores — em torno de um imperativo ambiental que é, ao mesmo tempo, econômico e estratégico: reduzir a pressão sobre recursos naturais e transformar passivos ambientais em ativos industriais.

Na composição dos materiais coletados, a maior parte — como vidro e metais — segue as rotas tradicionais de reciclagem. Porém cerca de 5% corresponde a garrafas plásticas que a empresa transforma no que batizou de "Fio do Mar". “Uma vez recolhidos, os resíduos são triturados e convertidos em flocos, depois em grânulos, antes de passar pela fiação”, explica Ángela Pérez, especialista em inovação têxtil e sustentabilidade da Ecoalf.

O núcleo dessa cadeia produtiva está na sede da marca, em Madri, onde o Fio do Mar e outros materiais reciclados se transformam em centenas de tecidos. Desde sua fundação em 2009, a empresa amplificou as fontes de matérias-primas: além das garrafas, reutiliza velhas redes de pesca, pneus e fibras naturais recicladas, como algodão e lã, com o objetivo de reduzir o impacto tanto da produção quanto da peça final, sem sacrificar estética e qualidade.

A lógica da circularidade perpassa todas as fases do desenho de produto. “Muda tudo desde o início. Cada peça é projetada para, ao terminar seu ciclo de uso, poder ser totalmente desmontada e reinserida no ciclo produtivo sem processos adicionais”, afirma Julie Sohn, diretora criativa da Ecoalf. É uma mudança de paradigma — um deslocamento no tabuleiro industrial em que se busca encadear sustentabilidade e viabilidade comercial.

Como analista atento às tensões entre economia e ecossistemas, observo que iniciativas como a da Ecoalf representam um reposicionamento das peças no tabuleiro: não se trata apenas de moda, mas de um redesenho de fronteiras invisíveis entre poluição, trabalho marítimo e cadeia de valor global. São alicerces de uma política industrial que, se ampliada, pode alterar a tectônica de poder entre atores locais e mercados globais — uma jogada estratégica cuja eficácia dependerá da capacidade de escalar e integrar políticas públicas e incentivos econômicos.

Em suma, o modelo demonstra que, com disciplina técnica e coordenação institucional, é possível converter um passivo ambiental num recurso têxtil. Resta, porém, a pergunta diplomática e prática: como transformar esse movimento em norma global, diminuindo a entrada contínua de plástico nos mares e evitando que os ganhos fiquem restritos a ilhas de inovação?

Guia Italia + — O conteúdo continua após a publicidade.

Continuação do Conteúdo ↘