Hungria age no tabuleiro do Danúbio para salvar a central nuclear de Paks
Hungria usa batelões e barreira de fundo para elevar o nível do Danúbio e proteger a central nuclear de Paks; dias seguintes são cruciais.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Hungria age no tabuleiro do Danúbio para salvar a central nuclear de Paks
Por Marco Severini, Espresso Italia — A Hungria executa um movimento técnico e estratégico para proteger a central nuclear de Paks enquanto o nível do Danúbio atinge patamares mínimos. Desde o meio-dia de segunda-feira, a comporta do ramo Ráckevei‑Soroksári, em Dömsöd, foi aberta para introduzir um aporte adicional de 20 m³/s ao leito principal, ganho que se traduz por cerca de dois centímetros de acréscimo no nível do rio.
Paralelamente, chegaram a Paks duas unidades flutuantes — os batelões — cuja finalidade emergencial é ser afundados, após enchimento controlado, para formar uma barreira de fundo provisória. A operação de bombeamento de água para dentro dos cascos foi retomada na manhã de segunda-feira: as embarcações serão submergidas de forma calibrada para elevar o nível hídrico imediatamente a jusante da usina.
O risco operacional é concreto: o desligamento da penúltima turbina da central só poderá ser evitado se o afundamento dos batelões produzir o incremento de nível esperado. Em paralelo, prossegue em ritmo acelerado a construção da barreira de fundo definitiva, um dispositivo entre as margens do rio no trecho que vai da central até o município de Dunaszentbenedek.
Decisões técnicas e políticas convergiram: após uma visita de inspeção realizada na semana passada e com base em recomendações concordantes de especialistas em gestão de águas, energia e defesa, o governo aprovou a obra. O projeto prevê, numa primeira fase, o emprego de 35 mil metros cúbicos de enrocamento e, na sequência, mais 110 mil metros cúbicos para consolidar a estrutura permanente.
O calendário hidrológico determina os próximos passos. Terça e quarta-feira serão dias críticos: prevê‑se uma nova queda do nível do Danúbio na ordem de 14 a 15 centímetros antes de qualquer recuperação. A expectativa de alívio recai sobre precipitações anunciadas para as bacias austríacas a partir de quinta-feira, que podem reverter a tendência de déficit e permitir um retorno gradual dos níveis normais.
Do ponto de vista estratégico, trata‑se de uma operação de curto prazo com implicações de médio e longo prazo sobre a segurança energética e a soberania operacional da Hungria. A manobra de abrir um braço afluente ao leito principal lembra um lance posicional numa partida de xadrez: ganha‑se terreno e tempo para estabilizar uma peça essencial do tabuleiro nacional — a produção elétrica de Paks — enquanto se finaliza uma obra de engenharia que pretende robustecer os alicerces da infraestrutura fluvial.
Riscos ambientais, técnicos e diplomáticos permanecem. A instalação de uma barreira de fundo altera a morfologia local, exige monitoramento contínuo e coordenação com vizinhos de bacia. A tectônica de poder regional, por sua vez, observa a Hungria reforçando a proteção de um ativo crítico, ao mesmo tempo em que controla as consequências hidrológicas sobre trechos a montante e a jusante.
Em suma, a combinação de intervenções temporárias (batelões afundados) e definitivas (enrocamento maciço) representa um programa de mitigação que traduz a prioridade do governo: preservar a operação da central de Paks evitando apagões ou cortes forçados. Nas próximas 72 horas, porém, o desfecho dependerá tanto da precisão da engenharia como da generosidade do clima nas cabeceiras austríacas do Danúbio.