Eurodeputados do PD acusam Meta de interferência nas eleições do Brasil: anúncios de Lula desativados
Eurodeputados do PD acusam a Meta de interferir nas eleições do Brasil ao desativar anúncios de Lula e suspender perfis. Segundo turno dia 25/10.
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Eurodeputados do PD acusam Meta de interferência nas eleições do Brasil: anúncios de Lula desativados
Por Marco Severini - De Brasília a Bruxelas, o resultado do primeiro turno no Brasil abre um novo capítulo nas tensões entre política, tecnologia e soberania. O país caminha para um segundo turno a 25 de outubro que decidirá se o comando volta ao eixo trabalhista de Lula ou se se consolida a guinada conservadora representada por Flávio Bolsonaro. Entre os sinais de fragilidade do palco democrático, sobressaem o elevado índice de abstenção (21%) e episódios recentes envolvendo plataformas digitais que, segundo deputados europeus, podem ter alterado o equilíbrio da disputa.
Na capital europeia, a reação foi imediata. O eurodeputado Sandro Ruotolo, do PD e membro da comissão especial sobre o escudo europeu para a democracia, denunciou que, a dez dias do primeiro turno, a empresa Meta — controladora do Facebook e do Instagram — desativou anúncios da página do presidente e candidato Luiz Inácio Lula da Silva. A equipe de campanha do líder petista apresentou recurso e as publicidades foram repostas horas depois, mas o episódio já havia provocado inquietação.
Ruotolo acrescenta que, no mesmo dia, a plataforma suspendeu temporariamente um perfil no Instagram que havia divulgado um vídeo viral sobre um escândalo de corrupção envolvendo politicamente Flávio Bolsonaro. Segundo o eurodeputado, o perfil foi reativado após a empresa justificar o caso como um erro interno e apresentar desculpas, mas a sequência dos acontecimentos teria penalizado a campanha do Partido dos Trabalhadores e favorecido o candidato da nova direita.
Na avaliação do chefe da delegação do PD no Parlamento Europeu, Nicola Zingaretti, a situação reabre uma questão estrutural: até que ponto democracias contemporâneas continuam livres quando poucos atores privados dispõem do poder de decidir quem fala, quando e para quem? A crítica não se limita a um incidente isolado: evoca um padrão mais amplo de influência das grandes plataformas norte-americanas sobre processos eleitorais em países soberanos.
Bruxelas, por sua vez, afirma que está monitorando o cumprimento dos deveres legais das plataformas. A UE tem progressivamente erguido mecanismos de supervisão, mas o episódio brasileiro evidencia que as normas ainda convivem com alicerces frágeis — e que, em momentos decisivos, atores privados podem exercer um movimento decisivo no tabuleiro informacional.
Não é a primeira vez que figuras ligadas ao universo tecnológico engrossam o coro das controvérsias eleitorais: antes, o empreendedor Elon Musk foi acusado de alinhar a moderação do X a posições de extrema-direita na Alemanha. Agora, a presença de Mark Zuckerberg e de sua empresa volta ao centro do debate público, expondo o entrelaçamento entre poder privado e soberania democrática.
Do ponto de vista estratégico, o caso brasileiro oferece uma lição clara: a tectônica de poder que rege a comunicação política global exige instrumentos de defesa mais robustos — não apenas regras, mas procedimentos operacionais que garantam transparência e responsabilidade no uso de ferramentas que moldam o campo público. Enquanto isso não acontece, cada incidente é um redesenho de fronteiras invisíveis entre atores estatais e privados, com consequências imediatas para o resultado eleitoral.
Na diplomacia da informação, é preciso reconhecer que a geopolítica contemporânea incorpora as plataformas digitais como atores de fato. O desafio é transformar esse reconhecimento em políticas que preservem a estabilidade dos processos democráticos sem cair em soluções simplistas. O dia 25 de outubro será, além de uma decisão democrática, um teste da resiliência institucional diante das novas formas de influência.

