Milei em Paris: encontro com Macron e anúncio de US$10 bilhões da TotalEnergies para a Argentina
Milei se encontra com Macron em Paris; TotalEnergies anuncia quase US$10 bi para projetos na Argentina, com foco em Neuquén e minerais críticos.
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Milei em Paris: encontro com Macron e anúncio de US$10 bilhões da TotalEnergies para a Argentina
Por Marco Severini — Em uma visita cujo objetivo é atrair capitais e redesenhar posições de influência, o presidente argentino Milei foi recebido no Palácio do Élysée pelo presidente francês Macron. A audiência, realizada em meio a tensões políticas e econômicas internas na Argentina, foi acompanhada por um anúncio de peso do grupo francês TotalEnergies: a empresa informou a previsão de quase 10 bilhões de dólares em investimentos no país sul-americano.
Segundo comunicados oficiais, a TotalEnergies, atualmente o primeiro produtor internacional de gás na Argentina, pretende desenvolver três projetos já em curso, com ênfase na província de Neuquén, no norte da Patagônia. A região abriga uma das maiores reservas globais de petróleo e gás de xisto, um ativo estratégico para empresas energéticas que buscam ampliar produção e integração de cadeias de suprimento.
No tabuleiro econômico argentino, o aporte francês é recebido como um movimento necessário. Após reduzir a inflação e reequilibrar as contas públicas — conquistas obtidas a partir de uma política de austeridade severa — a Argentina enfrenta agora um arrefecimento da atividade, sobretudo no setor industrial, e um aumento do desemprego. Em termos práticos, os investimentos anunciados significam não apenas fluxo de caixa, mas tentativa de reativação industrial e geração de empregos em setores cruciais.
Politicamente, a presença de Milei em solo europeu é simultaneamente simbólica e problemática. Suas linhas de austeridade e o programa econômico liberal extremo são alvo de fortes contestações no país: manifestações públicas frequentes refletem o descontentamento popular. Além disso, o presidente é figura controversa no plano cultural e ideológico — admirador e aliado de Donald Trump, conhecido por ataques a meios de comunicação e por posições críticas a movimentos feministas e LGBTQ+.
Nas vésperas do encontro com Macron, Milei afirmou que a Europa estaria "afundando" e, na tribuna da ONU, desferiu críticas contundentes ao organismo e ao multilateralismo. Em Paris, por sua vez, um grupo de cerca de cem manifestantes concentrou-se no Trocadéro, em frente à Torre Eiffel, para expressar oposição à visita.
Do lado francês, o Élysée procura conciliar divergências políticas com interesses econômicos que transcendem afinidades ideológicas. A França mira, em particular, o fortalecimento de laços com a Argentina no setor de minerais críticos — como o litio e o cobre — essenciais para a transição energética e para cadeias industriais estratégicas.
Em termos de geopolítica, este episódio é um movimento cuidadoso no grande tabuleiro. A chegada de capital francês atenua pressões imediatas sobre a economia argentina, mas não elimina as fraturas internas nem as tensões internacionais geradas pelas posições radicais do governo. A jogada serve tanto aos interesses corporativos da TotalEnergies quanto à diplomacia de Macron, que busca proteger investimentos franceses enquanto navega pelas correntes idiossincráticas da política argentina — um exemplo clássico de realpolitik, onde os alicerces da diplomacia oscilam entre princípios e interesses.

