Prosfygika em Atenas: resistência comunitária contra o despejo, a gentrificação e o uso controverso de fundos europeus
Prosfygika em Atenas luta contra despejo e uso questionável de fundos europeus; comunidade denuncia gentrificação e pede investigação da UE.
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Prosfygika em Atenas: resistência comunitária contra o despejo, a gentrificação e o uso controverso de fundos europeus
Bruxelas — Em uma conferência de imprensa transmitida ao vivo no YouTube em 4 de junho, representantes da comunidade de Prosfygika em Atenas apresentaram à imprensa europeia sua defesa contra um plano governamental que classificam como um movimento coordenado de despejo, gentrificação e apropriação indevida de fundos europeus. A delegação, composta por Valentini Siova, Dimosthenis Karavoltsios e Nikos Kolokotronis, acompanhada do advogado da comunidade, descreveu o quadro como um movimento decisivo no tabuleiro da política urbana grega.
O complexo conhecido como Prosfygikanon, localizado no bairro de Ambelokipi, é um conjunto de edifícios populares no centro de Atenas que abriga mais de 400 pessoas. Autointitulada como “a maior comunidade auto-organizada da Europa”, a estrutura oferece 22 serviços sociais a seus moradores e à população local: uma padaria comunitária, biblioteca, farmácia social, creche e espaços que fornecem alojamento gratuito para doentes oncológicos e seus familiares. Para os representantes, estes serviços são os alicerces frágeis — mas essenciais — da solidariedade urbana.
Quase um ano atrás, em 6 de junho de 2025, a Região da Attica anunciou a assinatura de um acordo programático com o Ministério da Cultura grego para utilizar recursos do Fundo Europeu para o Desenvolvimento Regional (FEDER) na construção de habitação de uso popular. Segundo a delegação, entretanto, o plano é um subterfúgio: um projeto de "requalificação" que, em prática, promove a expulsão dos atuais moradores em favor de interesses imobiliários, caracterizando um processo de gentrificação e repressão política.
Os ativistas alegam que o acordo viola o Regulamento Europeu de 2021 — que disciplina os princípios financeiros aplicáveis aos fundos de coesão — e a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia. A acusação é grave: segundo Karavoltsios, o uso dos fundos estaria sendo convertido em uma fachada de “habitação social” para, na prática, desmantelar uma comunidade que já fornece cuidados de saúde, alimentação e apoio social.
"Vão destruir uma comunidade que já provê serviços básicos para substituí-la por um projeto vazio", declarou Karavoltsios, descrevendo o episódio como um movimento táctico que visa neutralizar um ator político que desafia o status quo. Para os moradores, o risco de despejo não é apenas uma questão de moradia; é um ataque à memória histórica da resistência social: os prédios de Prosfygika foram erguidos entre 1933 e 1936 para acolher os refugiados da Ásia Menor após a guerra greco-turca de 1922 e foram palco de combates contra tropas britânicas e forças governamentais em dezembro de 1944.
Em 3 de junho, a organização Amnesty International emitiu uma nota pública expressando profunda preocupação com o risco de despejo forçado de cerca de 400 residentes do complexo histórico. A repercussão internacional adiciona pressão diplomática e coloca a questão no campo da responsabilidade da União Europeia sobre a aplicação dos seus próprios instrumentos financeiros.
Do ponto de vista estratégico, o caso Prosfygika revela um redesenho de fronteiras invisíveis na política urbana europeia: a convergência entre políticas públicas, interesses privados e instrumentos comunitários pode transformar fundos destinados à coesão em um mecanismo de reconfiguração social. A delegação em Bruxelas pediu às instituições europeias uma investigação transparente sobre a legalidade do uso dos recursos do FEDER e solicitou medidas de proteção imediatas para os moradores.
Enquanto a tensão aumenta, a comunidade continua a operar seus serviços autodirigidos, mantendo uma presença que é ao mesmo tempo testemunho histórico e oposição civicamente organizada. Como analista que observa o tabuleiro geopolítico urbano, noto que esta é uma partida em que as peças são humanas e a aposta é a própria memória coletiva de uma cidade.
Fonte: conferência de imprensa da delegação da Comunidade dos Prosfygika em Bruxelas (transmissão YouTube, 4 de junho) e comunicado da Amnesty International (3 de junho).