Samuel Johnson tinha razão: o ‘patriotismo’ como último refúgio dos charlatães — lições da ascensão da AfD em Sachsen-Anhalt
Samuel Johnson adverte sobre o falso patriotismo. Análise sobre a ascensão da AfD em Sachsen-Anhalt, elites e riscos para a estabilidade política europeia.
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Samuel Johnson tinha razão: o ‘patriotismo’ como último refúgio dos charlatães — lições da ascensão da AfD em Sachsen-Anhalt
Samuel Johnson, citado por James Boswell, cunhou uma frase que atravessa séculos: “Patriotism is the last refuge of a scoundrel”. Em português, lembramos: o patriotismo pode transformar-se no último abrigo do charlatão. Essa advertência do século XVIII permanece uma lente útil para interpretar movimentos políticos contemporâneos, inclusive a ascensão de forças como a AfD na Alemanha.
No ensaio de 1774, Johnson não atacava o amor honesto pela pátria, mas denunciava o falso patriotismo: a demagogia que veste a bandeira para ocultar ambições pessoais, privilegiando o poder sobre o serviço público. Em muitos contextos contemporâneos — quando líderes prometem soluções fáceis para crises complexas — essa estrutura retórica reaparece com notável recorrência.
Na manhã em que ouvi o colega Beda Romano, apresentador do programa “Prima Pagina” na Radio Tre Rai, ele apontou, com a calma de quem conhece a Alemanha, que a ansiedade é um traço explorável no eleitorado. Os medos sobre o futuro — económicos, sociais e identitários — criam terreno fértil para apelos nacionalistas. Isso é particularmente visível em regiões onde o desenvolvimento econômico permanece desigual.
Tomemos o pequeno Land de Sachsen-Anhalt: cerca de 2,1 milhões de habitantes e aproximadamente 1,7 milhão de eleitores, um Produto Interno Bruto na ordem de quase 82 bilhões de euros, respondendo por cerca de 1,8% do total nacional e situando-se em torno da 12ª posição entre os Estados federados. Apesar dos ganhos desde a reunificação, persistem fragilidades estruturais, expectativas frustradas e incertezas para gerações mais jovens. Nesses alicerces frágeis da diplomacia social, narrativas simplistas e identitárias encontram eco.
É precisamente nessa fissura — entre promessas eleitorais grandiosas e realidades econômicas limítrofes — que partidos como a AfD operam. Não se trata apenas de políticas públicas; trata-se da manipulação de ansiedades, da construção de um inimigo externo ou interno e da conversão do sentimento de perda em votos. Comparações com fenômenos em outras latitudes, como a retórica de Donald Trump, ajudam a mapear padrões: líderes que oferecem um futuro radioso, enquanto a administração concreta frequentemente deixa resultados ambíguos ou negativos — algo visível no cotidiano de consumidores e trabalhadores.
Uma análise estratégica conduz a observar o jogo no tabuleiro de xadrez político: o movimento decisivo não é apenas conquistar votos, é redesenhar e consolidar um eixo de influência. As elites, por sua vez, desempenham um papel ambíguo. Quando uma classe dirigente se distancia — por interesses próprios, por inércia ou por miopia — cria-se um vácuo de representação. Esse distanciamento alimenta narrativas de ressentimento, e o ressentimento é combustível político potente.
Historicamente, ensinar o passado não garante que se evitem erros futuros. A história documenta padrões e oferece mapas; a tectônica de poder, entretanto, muda quando atores que se consideravam periféricos aprendem a capitalizar medos coletivos. O desafio para as democracias consolidadas é recompor a confiança: políticas que reconstituam expectativas reais, instituições que mostrem eficácia e uma elite capaz de refortificar laços com o país real.
Do ponto de vista da estratégia internacional, devemos interpretar a consolidação da extrema-direita como um redimensionamento do espaço político interno que tem consequências externas. Estados com fraturas internas e lideranças que exploram o patriotismo como escudo tendem a agir com maior imprevisibilidade no palco externo, alterando o equilíbrio entre alianças e rivalidades.
Em suma, a frase de Johnson permanece uma advertência para quem observa o tabuleiro: nem todo brado patriótico indica serviço público. Muitas vezes é um movimento tático — o último refúgio do oportunismo — cujo custo real se manifesta nas fraturas sociais e na erosão das instituições que sustentam a estabilidade.

