Revisão das regras sobre tabaco na UE: consulta fechada e já explode caso de transparência
UE encerra consulta sobre regras do tabaco; surge polémica sobre transparência enquanto Bruxelas prepara proposta para 2026.
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Revisão das regras sobre tabaco na UE: consulta fechada e já explode caso de transparência
Bruxelas — A consultação pública lançada pela Comissão Europeia sobre a revisão das normas que regem produtos, publicidade e patrocínio do tabaco foi encerrada na noite de sexta-feira, 14 de agosto, mas o primeiro confronto do processo revelou tensões que não podem ser ignoradas.
O exercício faz parte da chamada "call for evidence" que prepara uma proposta legislativa prevista para o final de 2026. A intenção declarada de Bruxelas é modernizar um quadro normativo que produziu resultados positivos em termos de redução do número de fumantes e de mortes relacionadas ao fumo, mas que hoje enfrenta «um mercado profundamente mudado».
À medida que surgem novos dispositivos — notadamente cigarros eletrônicos, produtos de tabaco aquecido e as chamadas pouches ou saquinhos de nicotina —, a Comissão entende que é necessário ajustar as duas diretivas europeias que regulam o setor para fechar lacunas e proteger especialmente as gerações mais jovens. O objetivo estratégico permanece ambicioso: alcançar, até 2040, uma geração sem tabaco, combinando prevenção, proteção dos jovens, regras para novos produtos e controlo rigoroso da sua promoção.
O comissário europeu da Saúde, Olivér Várhelyi, destacou em publicação nas redes sociais que «as nossas regras devem acompanhar a realidade de hoje», sublinhando que a revisão não se limita aos cigarros convencionais, mas visa também «a proteção dos jovens contra novas formas de dependência» e uma regulação mais clara dos produtos à base de nicotina.
No entanto, o próprio processo de consulta passou a figurar no centro do debate. Entre os participantes, surgiram críticas quanto à transparência e à forma como a Comissão estruturou o questionário. O professor Riccardo Polosa, titular de Medicina Interna na Universidade de Catania, alertou que o formulário era «inutilmente complexo» e, em vários pontos, parecia orientar os respondentes para categorias e opções políticas já delineadas. Polosa teme que se crie apenas «a aparência de uma consulta», sem permitir que os stakeholders expliquem adequadamente diferenças científicas, a proporcionalidade de medidas e os perfis de risco distintos entre produtos.
Do ponto de vista técnico e estratégico, a crítica de Polosa converte-se numa preocupação mais ampla: como equilibrar a proteção da saúde pública com a necessidade de distinguir, com precisão científica, entre produtos combustíveis e não combustíveis? A resposta definirá não só o conteúdo jurídico da futura legislação, mas também a confiança das partes interessadas no processo de tomada de decisão.
Em termos de diplomacia regulatória, estamos perante um movimento decisivo no tabuleiro institucional europeu. A revisão das diretivas sobre tabaco será moldada por avaliações de risco, pressões de setores industriais, demandas de ONG de saúde pública e pelo imperativo político de demonstrar resultados tangíveis à opinião pública.
Os próximos meses serão, portanto, um período de intensa tectônica de poder: a Comissão terá de traduzir evidências científicas em texto legislativo, ao mesmo tempo em que preserva a percepção de um processo transparente. Qualquer falha nesse equilíbrio poderá fragilizar os alicerces da diplomacia sanitária europeia e abrir caminho a contestações legais e políticas.
Em breve, quando a proposta for apresentada até o final de 2026, conheceremos se a União Europeia optará por linhas mais restritivas, por um modelo diferenciador entre produtos, ou por uma solução híbrida. Até lá, a credibilidade do processo de consulta permanecerá sob escrutínio.