Mont Blanc exige reserva? A nova batida do passo nas trilhas do Teto da Europa
Mont Blanc pode exigir reserva para trilhas: medidas em estudo em Saint-Gervais-les-Bains para controlar turismo e proteger trilhas no TMB.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Mont Blanc exige reserva? A nova batida do passo nas trilhas do Teto da Europa
Ciao, amado leitor — sou Erica Santini, e convido você a saborear esta história como quem prova um bom espresso ao amanhecer nos Alpes. Nos trechos mais concorridos do Mont Blanc, a paisagem dos trilhos vem transformando-se numa fila contínua: caminhantes avançam tão próximos uns dos outros que, por vezes, mal há espaço para respirar a altitude. Os moradores locais, que sentem no corpo e na rotina a pressão do turismo, descrevem a situação como insustentável.
Jean-Marc Peillex, presidente do município de Saint-Gervais-les-Bains, contou à SRF: “Hoje vai-se em fila indiana. As pessoas só vêem os traseiros umas das outras. Isso não é nada agradável”. Com tom firme, Peillex propõe que, a partir da próxima primavera, o acesso a certos percursos seja limitado, com controlos e sanções para garantir o cumprimento.
Saint-Gervais-les-Bains, no lado francês do maciço do Mont Blanc, é um ponto de partida-chave para quem encara o circuito de Mont Blanc. Parte do acesso francês ao famoso TMB passa pela região, e o crescimento das chegadas pressiona trilhas, cabanas e a própria serenidade da montanha.
A proposta central é esta: para percorrer o circuito de Mont Blanc será obrigatória a reserva em uma cabana ou em uma zona de bivaque autorizada. Essas zonas de bivaque são áreas oficialmente delimitadas onde se admite pernoitar ao ar livre ou montar tenda, geralmente com pouca ou nenhuma infraestrutura — ao contrário das cabanas tradicionais. Se a regra não puder ser implementada de forma segura e coordenada, Peillex admite: “Se isso não for possível, adia-se o plano para o ano seguinte.”
As autarquias francesas ao longo do trajeto trabalham em conjunto para que a nova regulamentação entre em vigor já na próxima primavera. Do outro lado da fronteira, porém, a Suíça ainda não prevê restrições equivalentes. Joachim Rausis, presidente do município de Orsières no Valais, reconhece a necessidade de intervenção mas evita rotular o fenómeno como excesso de turismo: “Há sinais e temos de ordenar algumas coisas. Mas é sobretudo necessária coordenação entre a Suíça, Itália e França”.
Para os guias de montanha, o desafio é prático e quotidiano: a procura intensa obriga a reservar hotéis e cabanas com até um ano de antecedência. Para guias independentes, que raramente têm clientes com reservas tão antecipadas, isso equivale a um entrave profissional importante.
O debate coloca uma questão de princípio do turismo de montanha: como conciliar a fama internacional dos Alpes com a proteção da natureza e os direitos das populações locais? A exigência de reserva poderia reduzir os fluxos e proteger trilhas, solos e ecossistemas frágeis, mas também confronta a ideia tradicional italiana e europeia de que a montanha é um espaço de livre acesso.
Aliás, essa obrigatoriedade não é totalmente inédita no Mont Blanc. Na via normal francesa rumo ao cume, as noites nas cabanas Nid d’Aigle, Tête Rousse e Goûter já exigem marcação através de um sistema especial: os nomes dos participantes são registados e a confirmação da reserva deve ser apresentada em controlos ou inspeções.
Andiamo com cuidado: organizar o acesso pode significar preservar a alma da montanha. Entre o perfume dos vinhedos do vale e a textura do tempo nas paredes graníticas, a solução ideal pede coordenação transfronteiriça, sensibilidade local e, sobretudo, respeito — por quem vive e por quem visita. Dolce far niente na montanha só é doce se a montanha puder continuar a existir em paz.