Como Kate Middleton tornou público o legado de Loris Malaguzzi e do Reggio Emilia Approach
Como Kate Middleton reacendeu o interesse pelo legado de Loris Malaguzzi e pelo Reggio Emilia Approach na Itália e no mundo.
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Como Kate Middleton tornou público o legado de Loris Malaguzzi e do Reggio Emilia Approach
Por Giulliano Martini — A recente atenção pública ao trabalho de Loris Malaguzzi só ocorreu porque a figura internacional de Kate Middleton colocou o tema em evidência. É uma constatação dura, baseada em fatos: sem o gesto da princesa de Gales, boa parte do público italiano continuaria alheio à trajetória que transformou a pedagogia infantil em referência internacional.
Em anos de apuração em campo e cruzamento de fontes, não registro nenhum político nacional que tenha desempenhado papel equiparável ao da cobertura que Kate provocou. Em outras palavras: o país que produziu o Reggio Emilia Approach desconhece em massa seu principal autor. Esse é um problema institucional e cultural que merece ser apontado sem rodeios — mea culpa da elite política e educacional italiana.
A história é clara e documentada. Loris Malaguzzi formou-se em Pedagogia na Universidade de Urbino em 1940 e iniciou sua carreira como professor primário. Entre 1941 e 1943 lecionou em Sologno, pequeno povoado do Appennino reggiano, pertencente ao município de Villa Minozzo. Em abril de 1945, integrou-se a um projeto coletivo: moradores de origem camponesa e operária decidiram abrir uma escola autogerida para crianças, dando início a uma experiência comunitária que se expandiria.
O passo decisivo veio em 1963, quando o Comune di Reggio Emilia articulou uma rede de serviços educativos e abriu os primeiros asili para crianças de 3 a 6 anos. Foi a pedra angular: pela primeira vez, na prática, cidadãos reivindicaram o direito de fundar uma escola laica para a primeira infância. Malaguzzi recordava que, uma vez por semana, eles literalmente levavam a escola para a cidade — carregavam crianças, material e instalações, faziam mostras ao ar livre em praças e sob o pórtico do teatro municipal. O gesto era pedagógico e político: envolver a comunidade, provocar indagações e mostrar resultados.
O reconhecimento internacional escalou quando, em 1991, a revista Newsweek citou a escola municipal "Diana" de Reggio Emilia entre as experiências educativas mais inovadoras do mundo. Nascia a notoriedade global do Reggio Emilia Approach, cuja base é uma pedagogia relacional e socio-construtivista. Importa salientar: não se trata de um método prescritivo, nem de uma sequência de técnicas a serem aplicadas mecanicamente. É uma filosofia que se materializa em práticas observáveis e adaptáveis, replicáveis em contextos diversos.
No cerne dessa abordagem está a visão do sujeito infantil como criança competente: curiosa, ativa, capaz de construir conhecimento desde a primeira infância. A mudança é conceitual e prática. Em vez de partir da pergunta "o que a criança ainda não sabe?", a proposta desloca o foco para "o que a criança já faz, explora e almeja?". É um paradigma que desmente narrativas políticas simplistas sobre educação e desenvolvimento.
Como repórter com décadas de presença na Itália e prática de apuração in loco, vejo esta redescoberta pública como uma oportunidade e um alerta. O país precisa levar ao conhecimento coletivo a trajetória de Malaguzzi e a experiência das Reggio Children. Educação é infraestrutura democrática. Reconhecer os próprios pioneiros é um primeiro passo para políticas públicas responsáveis e para evitar que bons modelos fiquem confinados ao círculo dos especialistas.
Fatos brutos, sem brilho retórico: a história existe, as datas e eventos são verificáveis. Cabe agora à sociedade e às instituições transformar esse reconhecimento em ação concreta.