Por que, no universo dos Poetry Slam, às vezes é melhor perder
Reflexão crítica sobre 40 anos do Poetry slam e 25 anos do movimento na Itália: por que, às vezes, perder preserva a integridade da poesia.
RESUMO ✦
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Por que, no universo dos Poetry Slam, às vezes é melhor perder
Começo este texto em 25 de julho de 2026, data que coincide com o quadragésimo aniversário da primeira edição de Poetry slam montada por Marc Kelly Smith no Green Mill, em Chicago — o histórico Uptown Poetry Slam. Em Chicago, a celebração aconteceu na Newberry Library, com Marc e dezenas de poetas que ao longo das décadas tornaram o formato um sucesso global incontestável.
São, por outro lado, 25 anos desde que eu realizei o primeiro Poetry slam em território italiano: foi em março de 2001, na Casa delle Letterature, em Roma. Neste mesmo ano realizei, no Museo del Cinema de Turim, o primeiro Slam internacional já realizado no mundo — iniciativas das quais guardo responsabilidade direta como idealizador e condutor.
Sinto-me orgulhoso desses marcos. Não pretendo, contudo, transformar este balanço em uma praxe comemorativa: não se fez, por aqui, a devida reflexão em 2021 pelo vigésimo aniversário — e pouco importa: sou alérgico a festas. O que me interessa, como repórter rigoroso e observador de longa data, é fazer um raio-x do fenômeno que hoje ocupa páginas inteiras da imprensa, e que estruturou uma verdadeira family cultural — da qual, inevitavelmente, sou o que muitos chamam jocosamente de SlamPapi.
Na década de 1980, nos Estados Unidos, o Poetry slam nasceu como um gesto de democratização e agitação: dar voz, numerar experiências, experimentar a performance. Em 2001, quando o introduzi na Itália, havia ainda um forte componente formal e uma busca por renovação poética. O que vejo hoje, observando slams pelo país e pelo mundo, é uma transformação que merece ser debatida com frieza: o formato saiu da nicho e tornou-se um fenômeno majoritariamente sociológico e midiático — muitas vezes mais espetáculo do que texto.
Não se trata de uma crítica moralista ao sucesso. O reconhecimento e a visibilidade conquistados foram vitais para renovar o interesse pela poesia. O problema é quando a competição se sobrepõe ao conteúdo: rankings, avaliações numéricas e a pressa de performances virais tendem a premiar o efeito imediato em detrimento da densidade do poema. Julgadores avaliando em décimos, públicos buscando entretenimento rápido, manchetes elevando “campeões” — esse ecossistema altera os incentivos do artista.
Por isso, defendo que, por vezes, é melhor perder — e explico: perder pode significar recusar o formato competitivo como único caminho; é preservar momentos de leitura desinteressada; é escolher a construção do ofício ao invés da lógica do ponto. Perder, nesse sentido, é um ato consciente de proteger o valor formal da poesia frente à pressão da viralidade.
O que proponho como pontos de atenção, embasados em observação direta e cruzamento de fontes, é o seguinte:
- Reequilibrar julgamento: diversificar painéis de jurados, incluir críticos e acadêmicos ao lado do público para reduzir vieses performativos.
- Separar palco: reservar blocos não competitivos para leituras longas e experimentais, onde o tempo e a complexidade valham mais que a reação imediata.
- Formação: promover oficinas e processos críticos contínuos que fortaleçam a escrita — não apenas a performance.
- Transparência: divulgar critérios de avaliação e estimular debates públicos sobre o que se avalia num slam.
Continuo a assistir a muitos eventos, embora não os conduza mais; não por desinteresse, mas por escolhas de vida e falta de energia para a gestão contínua. Ainda assim, mantenho vigilância sobre a evolução do formato. Como repórter, meu papel é traduzir a realidade sem ruído: o Poetry slam venceu a batalha da legitimidade e da visibilidade. Agora precisa vencer a próxima: provar que pode ser ao mesmo tempo popular e rigorosamente poético.
Este é o primeiro de uma série de apontamentos. No próximo texto, entrarei em pormenores sobre casos concretos, dados coletados em amostras de slams nacionais e internacionais, e propostas técnicas para restaurar o equilíbrio entre o espetáculo e a arte do verso.
Giulliano Martini — apuração in loco, cruzamento de fontes, a realidade traduzida.