Fantamorto: por dentro do 'dead pool' que viralizou com a gafe de Elisa Isoardi
Entenda o fenômeno do Fantamorto: como funciona o 'dead pool' que viralizou após a gafe de Elisa Isoardi e reuniu mais de 12 mil equipes.
RESUMO ✦
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Fantamorto: por dentro do 'dead pool' que viralizou com a gafe de Elisa Isoardi
A recente gafe nas redes sociais de Elisa Isoardi voltou os holofotes para um fenômeno online que mistura humor negro, ritual coletivo e uma curiosa pulsão cultural: o Fantamorto. O episódio — em que a apresentadora mostrou por engano uma lousa com a expressão "dead pool" e uma lista de 22 nomes de figuras públicas italianas (entre eles Lino Banfi, Liliana Segre, Giovanni Allevi e até o presidente Sergio Mattarella) — reacendeu o debate sobre os limites do entretenimento e sobre como a internet traduz luto, curiosidade e irreverência.
Mas o que é, afinal, esse jogo macabro que também é conhecido como Totomorto ou pelo termo original em inglês Dead Pool? Na prática, trata-se de um passatempo que estrutura-se de modo muito parecido com o Fantacalcio: jogadores organizam equipes virtuais compostas por personalidades públicas reais e recebem pontos quando essas pessoas morrem ou sofrem infortúnios. No caso do site italiano que popularizou a versão nacional, o Fantamorto existe online desde 2009 e já contabiliza números significativos: mais de 12.000 equipes registradas, mais de 130.000 personagens escalados e 629 óbitos apontados como resultado do campeonato.
As regras públicas do jogo explicam boa parte de sua gramática simbólica: cada jogador — apelidado de "fantanecroforo" no jargão do site — monta uma lista de 13 personagens escolhidos entre pessoas que têm página na Wikipedia, e opera com um orçamento fictício de 330 Lire (simbolicamente "defuntas"). A dinâmica transforma a aposta sobre a vida em um mapa de probabilidades e ironias, com calendário e pontuações que conferem ao jogo um ar de liga competitiva, mas sem apostar dinheiro real.
As raízes dessa prática, porém, não são digitais. Há indícios de apostas sobre a morte que remontam a episódios como o decreto do papa Gregório XIV, em 1591, que proibiu apostas sobre o falecimento de prelados, passando pelos salões londrinos do século XVIII até chegar ao primeiro "dead pool" organizado em uma redação de Nova York, em 1934. A internet apenas amplificou e formalizou a brincadeira, conferindo-lhe regras, visibilidade e, claro, polêmica.
O caso de Isoardi reacende questões que vão além do sensacionalismo: por que nos fascina transformar a finitude alheia em jogo? Que tipo de reflexo do nosso tempo é esse — uma espécie de espelho do nosso tempo em que a celebridade se torna estatística? Como observadora do zeitgeist, proponho ver o Fantamorto como um roteiro oculto da sociedade contemporânea, onde a memória, o humor negro e o espetáculo se articulam em uma semiótica do viral.
Há, claro, limites éticos. Apontar nomes sensíveis (como sobreviventes, vítimas ou figuras profundamente respeitadas) transforma a provocação em ofensa e enseja indignação pública. A repercussão em torno da lousa exposta por Isoardi mostra que mesmo jogos que se autodefinem irreverentes não existem em vácuo: estão imersos em contextos históricos, afetivos e institucionais que determinam a linha tênue entre crítica cultural e desrespeito.
No fim, o Fantamorto é um fenômeno que diz muito sobre como tecnologicamente ritualizamos o inusitado. É uma liga que nos força a encarar, com humor e desconforto, a inevitabilidade da morte enquanto espetáculo — um verdadeiro reframe da realidade que nos desafia a pensar nos contornos éticos desse entretenimento. E, como em um bom filme que permanece na memória, a cena da lousa de Isoardi funciona como uma provocação: que roteiro coletivo estamos escrevendo quando transformamos o fim em brincadeira?

