Na Villa Medici, chega 'Paesaggio' — o quadro de 1909 que redesenhou Picabia
A Villa Medici exibe 'Paesaggio' (1909) de Francis Picabia por três meses; evento paralelo à mostra em Milão com debate em 13/10.
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Na Villa Medici, chega 'Paesaggio' — o quadro de 1909 que redesenhou Picabia
Por Chiara Lombardi — Em um gesto que parece dialogar com os ecos do passado e o roteiro oculto da história da arte, a Villa Medici recebe por três meses o Paesaggio, pintura de 1909 de Francis Picabia. A obra chega a Roma em paralelo com a grande mostra Picabia. Aprire le porte della notte, em cartaz no Palazzo Reale de Milão, consolidando um duplo itinerário que reflete o caráter errante e polimorfo do artista.
Após a célebre presença de Il limone, de Édouard Manet, na Câmara dos Elementos em 2024 — graças ao empréstimo excepcional do musée d’Orsay por ocasião dos 150 anos do impressionismo — a Accademia di Francia a Roma volta a exercer seu papel de ponte cultural entre coleções e público. O convite partiu de Anne Berest Picabia, escritora, neta do artista e curadora da mostra milanesa, reforçando o enlace biográfico e curatorial que traz Paesaggio de volta ao cenário italiano.
Formado na École des Arts Décoratifs de Paris, Francis Picabia (Paris, 1879-1953) atravessou, sem se prender, as principais vanguardas do século XX — do impressionismo ao cubismo, do fauvismo ao dadaísmo e ao abstracionismo. Sua trajetória é, em si, um espelho do nosso tempo: plural, contraditória e inquieta. Como dizia o artista, «Per avere idee pulite, bisogna cambiarle come le camicie» — uma máxima que traduz a necessidade de renovar o olhar, de reescrever a própria linguagem pictórica. É exatamente essa cesura de 1909, da qual Paesaggio é testemunha luminosa, que inaugura um percurso de liberdade e imprevisibilidade na história da arte.
Além da exibição, a Villa Medici promove um encontro público na terça-feira, 13 de outubro, reunindo Anne Berest Picabia e Arnauld Pierre — historiador da arte, professor da Sorbonne Université e autor de estudos fundamentais sobre Picabia. O diálogo promete investigar não apenas o momento de virada representado por Paesaggio, mas também os laços entre Picabia e François Morellet (Cholet, 1926-2016), mestre da abstração a quem a Villa dedica outra exposição de outono.
Ver Paesaggio nas salas históricas da Villa é, portanto, mais do que contemplar um quadro: é seguir um fio que liga Paris e Roma, experimentação e instituição, memória familiar e curadoria pública. É também perceber o modo como a obra ilumina o reframe da realidade artística do início do século XX — um momento em que as convenções se partem como placas de um cenário em transformação.
Para o público contemporâneo, acostumado ao ritmo acelerado dos virais e das narrativas imediatas, a presença de Paesaggio na Villa Medici funciona como uma pausa reflexiva. É um convite a ler a pintura como documento e espelho, a seguir o eco cultural de uma decisão artística que reconfigurou possibilidades. Em outras palavras: ver Picabia hoje é compreender por que certas rupturas continuam a falar conosco, e como o trabalho do artista permanece relevante para decifrar o zeitgeist que atravessamos.

