Balcanica: do Afeganistão sem música ao palco na Itália — um filme sobre liberdades arrancadas

Balcanica: a jornada do Afeganistão onde a música é proibida até um concerto na Itália, pela lente de Nicola Sorcinelli sobre liberdades negadas.

Balcanica: do Afeganistão sem música ao palco na Itália — um filme sobre liberdades arrancadas

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Balcanica: do Afeganistão sem música ao palco na Itália — um filme sobre liberdades arrancadas

Por Chiara Lombardi — Em Balcanica, o cineasta Nicola Sorcinelli desenha uma travessia que é, antes de tudo, um espelho do nosso tempo: pessoas que fogem de um Afghanistan onde a música é proibida e que precisam remontar a trilha pelos Balcanos para, enfim, chegar a um concerto na Itália. A narrativa não é apenas uma sucessão de eventos; é o roteiro oculto de como a privação das expressões culturais se converte em expulsão física e simbólica.

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O filme parte de uma premissa simples e brutal — a proibição imposta pelos talibãs — e transforma essa violência normativa em matéria cinematográfica que questiona o que resta quando o som é silenciado. Sorcinelli admite, em entrevista ao Il Foglio, que "La retorica è stata la mia paura più grande" — ou, em tradução, “a retórica foi o meu maior medo”. Esse receio não é apenas estilístico: ele diz respeito ao risco de reduzir vidas complexas a clichês humanitários e de transformar o sofrimento em imagem fácil.

O percurso pelo sudeste europeu funciona como um corredor histórico e simbólico. Os Balcanos são apresentados no filme como um mapa de passagem e resistência — um espaço em que identidades se recombinam, mas também onde as fronteiras políticas e administrativas reproduzem violências. A jornada rumo ao palco italiano tem, portanto, duas camadas: a física, feita de estradas, fronteiras e documentos; e a simbólica, feita de memórias sonoras, traços de infância e do desejo de voltar a ouvir o que foi proibido.

O que Balcanica propõe é uma reflexão sobre como a cultura — e, em particular, a música — funciona como linguagem de liberdade. Quando essa linguagem é criminalizada, o que está em jogo é a própria capacidade de existir socialmente. O filme não se contenta em denunciar: ele busca entender os efeitos íntimos da censura cultural, o modo como uma canção interrompida se transforma em legado de perda e também em combustível para a resistência.

Como analista cultural, vejo em Balcanica um reframe da realidade que conecta o quotidiano afegão às memórias europeias de trânsito e refúgio. A narrativa cinematográfica atua como um espelho: reflete as nossas falhas coletivas em acolher, mas também nossa capacidade de reconhecimento — quando abrimos o ouvido para ouvir aquelas vozes silenciadas. Sorcinelli evita o maniqueísmo, optando por perspetivas que humanizam sem romantizar, que interrogam sem reduzir.

O resultado é um filme que ressoa além do tempo de projeção. É uma peça de resistência cultural que nos lembra que interditar a arte é uma forma de violência política. Ao acompanhar a travessia até o concerto na Itália, o espectador é convidado a escutar não só melodias, mas histórias que revelam o preço das liberdades negadas e a persistência de quem insiste em recuperar o som do próprio passado.

Balcanica não oferece soluções fáceis. Oferece, isso sim, um campo de debate — e nos lembra que a arte, mesmo quando perseguida, permanece uma ferramenta essencial de memória e de reconstrução.

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