Paper Tiger: James Gray traduz o sonho americano esmagado pela máfia russa (voto 7)

Crítica a Paper Tiger, de James Gray: sonho americano fragilizado pela máfia russa, com atuações de Adam Driver e Scarlett Johansson. Voto 7.

Paper Tiger: James Gray traduz o sonho americano esmagado pela máfia russa (voto 7)

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Paper Tiger: James Gray traduz o sonho americano esmagado pela máfia russa (voto 7)

Assinada por Chiara Lombardi — direto de Cannes — a crítica do veterano Mereghetti confere voto 7 a Paper Tiger, novo filme de James Gray que chega em competição com um roteiro que parece ser, ao mesmo tempo, um drama familiar e um policial enraizado na paranoia dos anos 1980.

Estamos no Queens, 1986. O jovem ambicioso Gary Pearl (interpretado por Adam Driver) apresenta ao irmão Irwin (Miles Teller) uma aparente solução para as dificuldades financeiras da família: prestar consultoria para a dragagem de um canal fortemente poluído. A promessa é simples e quase cinematográfica — uma chance de resgate para uma pequena família de origem judaica que personifica o que muitos chamam de sonho americano.

Mas os contratantes não são os que parecem. Quando Irwin descobre que os clientes são russos, e vê algo que não deveria ver, a trama muda de ritmo e a vida do clã Pearl se transforma em um pesadelo. Soma-se a isso um inquietante fenômeno: a estranha duplicação da visão de Hester, mulher de Irwin, interpretada por uma destacada Scarlett Johansson — aqui, curiosamente, com um visual mais encaracolado que empresta textura e vulnerabilidade ao seu papel.

O filme se move em dois trilhos narrativos: a decadência cotidiana da família Pearl, que afunda cada vez mais em ansiedade e medo; e a obstinação de Gary, convencido de que os russos são meras “tigres de papel” e decidido a resolver tudo à sua maneira. São dois reflexos da mesma inadequação, duas faces de uma classe média que se julga capaz de dominar o destino, até descobrir que o preço do erro pode ser muito alto.

Depois de obras que deslocaram o espírito aventureiro para a floresta amazônica (Lost City of Z) ou para o cosmos (Ad Astra), James Gray retorna à prosa da rotina e ao retrato íntimo de um universo familiar — deixando de lado a lente autobiográfica que aparecera em Armageddon Time. A diretiva aqui é mais genérica: as regras do gênero — numa mistura entre thriller policial e melodrama doméstico — orientam a narrativa.

O elenco entrega momentos fortes; sobretudo a interpretação de Scarlett Johansson, cuja presença confere calor e desassossego ao filme. Adam Driver segura a ambição cega do personagem com uma intensidade contida. Ainda assim, o filme perde um pouco de força narrativa ao pintar a máfia russa como uma entidade omnipresente e quase onipotente: o terror existe, mas a explicação moral e dramática que o sustente poderia ter sido mais densa.

Como um espelho do nosso tempo, Paper Tiger funciona como um reframe da realidade — um roteiro oculto que interroga a ideia de ascensão e fracasso dentro do tecido social americano. É cinema elegante, de observação, que prefere o sussurro ao estrondo, e que confirma Gray como um narrador sensible das pequenas tragédias da classe média.

Resumo final: boa direção, atuações seguras, e uma leitura sóbria do declínio do sonho americano, ainda que a potência dramática se conteve diante da sombra ampla da máfia russa. Voto 7.

Chiara Lombardi — Espresso Italia