Athleisure e a Gen Z pós-Ozempic: como o guarda-roupa ativo virou roteiro do cotidiano
Athleisure pós-Ozempic: como Gen Z, números bilionários e a coleção SLNSH Spring 2026 de Saul Nash estão redesenhando o guarda-roupa urbano.
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Athleisure e a Gen Z pós-Ozempic: como o guarda-roupa ativo virou roteiro do cotidiano
Por Chiara Lombardi — O que antes era vestido apenas para a academia virou a moldura do nosso tempo: athleisure é hoje um espelho do desejo coletivo por saúde, eficiência e estilo. Não se trata mais de trocar o traje social pelo moletom como gesto de rendição — ao contrário do que disse Karl Lagerfeld no seu tempo — mas de escrever um novo roteiro para o corpo em cena pública.
O fenômeno ganhou escala com a pandemia, quando o conforto deixou de ser exceção e se tornou norma; com o trabalho híbrido, que desconstruiu o uniforme do escritório; e com plataformas como o TikTok, que transformaram leggings e conjuntos coordenados em objetos aspiracionais. Nesse reframe cultural, a Gen Z emergiu como protagonista, naturalizando a adaptabilidade como forma de elegância: peças técnicas que acompanham desde uma sessão de pilates até uma chamada de trabalho e um aperitivo noturno.
Na era post-Ozempic, o corpo voltou ao centro do discurso público de maneira mais explícita — mais observado, mais disciplinado, mais performático. O athleisure ocupa esse ponto de encontro entre o conforto e a exibição do bem-estar: roupas que prometem movimento, controle e uma imagem de eficiência mesmo nas rotinas mais fragmentadas.
Os números confirmam que não é uma moda passageira. Segundo a Polaris Market Research, o mercado global alcançou 389,47 bilhões de dólares em 2024 e chegou a 425,07 bilhões em 2025, com crescimento de 9% — projeções apontam para 941,65 bilhões até 2034. O relatório do IMARC Group destaca ainda que o segmento de athleisure sustentável vale cerca de 106,3 bilhões de dólares, impulsionado por gerações que preferem comprar menos e com maior qualidade.
Nesse cenário mercadológico e simbólico entra a nova coleção SLNSH Spring 2026, assinada por Saul Nash para a Lululemon. A linha aposta em peças técnicas com cortes urbanos e tecidos respiráveis — pensadas tanto para o movimento quanto para os espaços da cidade. Nash resume essa filosofia sem afeto por jargões: 'Se você dança, faz yoga ou corre para pegar o ônibus, as roupas têm que se mover com você.' É uma sentença quase cinematográfica: o figurino não apenas acompanha a ação, ele orienta a narrativa do dia.
O impulso por materiais técnicos e produção responsável também reflete uma mudança ética no consumo: mais interesse por transparência, durabilidade e menor impacto ambiental. Para muitos consumidores, sobretudo entre os mais jovens, comprar se tornou um ato político; a moda passa a funcionar como um protocolo de identidade, um código privado traduzido em público.
Há ainda um elemento performático que merece atenção: a roupa athleisure promete eficiência mesmo quando a vida não é linear — é o efeito espelho de uma sociedade que exige constância. E é aí que a discussão se amplia: não é apenas sobre o que vestimos, mas o porquê de precisarmos parecer sempre alinhados com uma versão produtiva de nós mesmos.
Como analista cultural, enxergo o athleisure como um eco cultural que sintetiza memórias coletivas (do movimento, da saúde, do conforto) e as projeta num futuro imediato. É o guarda-roupa adaptável que traduz a busca por bem-estar em um código estético tão funcional quanto simbólico — o roteiro oculto de uma nova ordem social em que a indumentária se faz plataforma de performance e pertencimento.
Se a moda é o figurino que escolhemos para viver nossas narrativas cotidianas, o athleisure é, hoje, a linguagem que permite transitar por elas com menos ruído e mais intenção.