Investigação da BBC: polícia grega usa migrantes mascarados em respingimentos na fronteira do Evros

BBC revela que polícia grega teria usado migrantes mascarados para respingimentos violentos no Evros; denúncias apontam brutalidade e supervisão oficial.

Investigação da BBC: polícia grega usa migrantes mascarados em respingimentos na fronteira do Evros

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Investigação da BBC: polícia grega usa migrantes mascarados em respingimentos na fronteira do Evros

Por Marco Severini — Uma investigação da BBC, em cooperação com o Consolidated Rescue Group (CRG), trouxe à luz um padrão perturbador nas operações na fronteira terrestre entre Grécia e Turquia: a utilização, coordenada por autoridades, de migrantes mascarados e recrutados para executar respingimentos violentos ao longo do rio Evros. Documentos internos e depoimentos coletados indicam que o recurso a esses chamados “mercenários” teria sido ordenado e supervisionado por oficiais de alta patente.

A investigação começou no outono passado, a partir de um vídeo — compartilhado com a BBC por um traficante — que supostamente mostrava agressões. Desde então, a apuração reuniu relatos concordantes de migrantes, ex-mercenários, fontes policiais, documentos oficiais e transcrições vazadas. Entre as acusações estão sevícias: pessoas despidas, roubadas, espancadas e até vítimas de agressão sexual. Uma testemunha relatou que um homem mascarado vasculhou uma criança pequena, tirando-lhe a fralda em busca de pertences de valor.

Fontes policiais ouvidas pela BBC afirmam que esses mercenários seriam, na maioria dos casos, outros migrantes recrutados em países como Paquistão, Síria e Afeganistão, remunerados com dinheiro, aparelhos telefônicos roubados e documentos que facilitam a travessia pela Grécia. Uma autoridade local relatou, em audiência disciplinar, que lhe chegaram informações de que migrantes teriam sido violentadas por esses grupos. Um agente disse que não existe nenhum soldado, policial ou agente da Frontex em serviço no Evros que não saiba desses acontecimentos.

Relatos sugerem que, ao menos desde 2020, estes métodos teriam sido empregados de forma ilegal na fronteira. O primeiro-ministro grego declarou à BBC estar “totalmente alheio” às acusações de uso de migrantes para respingimentos forçados, que, salvo exceções extremamente limitadas, violam princípios do direito internacional e do devido processo.

Não é a primeira indicação desse modus operandi: em 2022, o coletivo jornalístico Lighthouse Reports já havia documentado operações em que homens mascarados efetuavam devoluções sumárias de chegantes em solo grego. A novidade da apuração da BBC é o conjunto de evidências internas e o detalhamento do papel de hierarquias policiais no recrutamento e supervisão.

Do ponto de vista geopolítico, trata-se de um movimento que altera, de forma discreta, o desenho das fronteiras: em vez de muros e patrulhas convencionais, vemos a configuração de atores irregulares como instrumentos de contenção — uma espécie de peça sacrificada no tabuleiro, utilizada para produzir resultados que estados preferem dissociar de sua responsabilidade direta. Há aqui um risco claro para a estabilidade jurídica e para a reputação da Grécia dentro da tectônica de poder europeia.

A Grécia, desde 2015, recebeu mais de um milhão de migrantes, principalmente por travessias marítimas, mas também pela fronteira terrestre do Evros, que acompanha cerca de 200 km do leito do rio. A persistência de práticas clandestinas de devolução e abuso aumenta a pressão sobre instituições europeias e humanitárias — e coloca em xeque os alicerces frágeis da diplomacia migratória regional.

Como analista, observo que a resposta correta exigirá mais que condenações públicas: será necessário um escrutínio institucional rigoroso, investigações independentes e medidas que restaurem a cadeia de responsabilidade, garantindo proteção efetiva a quem busca asilo. Sem isso, o risco é que o viés instrumental na gestão das fronteiras consolide um precedente perigoso, redesenhando fronteiras invisíveis através da violência e da impunidade.